Mostrar mensagens com a etiqueta Reflexões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Reflexões. Mostrar todas as mensagens

Há mais mundo!… o arco-íris reflecte-se em sete cores!…

Não chove lá fora, mas o dia é triste como se houvera chuva e as crianças partissem para longe da infância ingénua, para longe de toda a graça entressonhada, sem um pesar, uma dor sequer.
De sentido alucinado desprezo o mundo que em seguida abraço, removo-lhe as crostas duras da verdade rotineira, subverto a realidade comum neste jogo de aparências e, consumido de alterabilidade, não respondo à voz interior que balbucia: quem és tu no outro lado do espelho deste jogo ontológico?

A vida não passa de uma confusão cósmica de conjugações vãs e difíceis, onde só Viver! e Amar! têem significado depois de ceifadas as expectativas que nascem das palavras.

Corre um rio de interrogações enquanto olho a estrada esfíngica das horas mortas e, na confusão do caos que trespassa os meus olhos cerrados e me freme o peito, debato-me com um débil grito, um murmúrio: há mais mundo!… o arco-íris reflecte-se em sete cores!…

A Net, esse alter que assoma, distorcendo e invertendo a realidade para a tornar mais verdadeira.


Consigo visualizar esse “mentir”, principalmente a verdade desse mentir… o outro lado do espelho, dos simbolismos... onde se mente para melhor atirar a verdade suja ou o mistério do belo... onde num gesto que não é isolado se atiram para o écran palavras daquilo que sentimos na altura... pegada sobre pegada guiamo-nos pela luz das estrelas que nas folhas ficaram... um jogo ontológico onde se mente, na medida em que se subverte a realidade comum com a arte mágica de remover dos rostos as crostas duras da verdade rotineira, onde as palavras queimam por dentro e são a senha que dá acesso ao mundo dos vivos... o cosmos inteiro confundido numa mistura explosiva... um poema em que residem sentimentos e sentires... sim, a poesia serve para reencantar o mundo, serve para olharmos para nós e pensar; onde me enganei no caminho?... quem sou eu, afinal?... interrogações sempre sem resposta mesmo do outro lado do espelho, porque a verdade está tão subornada pela linguagem comum que a mentira se torna uma distinção poética e de toda a arte.

O poder da mentira é o de dizer a verdade!!!!!

Sacudamos os dentes que procuram rasgar-nos as carnes e dilacerar-nos o ânimo... deixa-me ir contigo até ao fim mais agudo da tua vida, pois só a mentira permite dizer a verdade para lá das verdades comuns e mentir acaba sendo uma necessidade absoluta neste jogo de aparências quotidiano... do apelo da selva que perdura e onde os predadores renascem mordendo trigo novo... onde as palavras são jogos de espelhos em que o lado direito parece ser o lado esquerdo, mas é dessa forma que expressamos as nossas emoções e sentimos tanta coisa quando escrevemos; pensamos em alguém que amamos... que não gostamos... numa paisagem... num momento único vivido... e nem cantos nem lágrimas poderão parar o destino marcado a cada um de nós e a todos nós, quando nos foge o tempo no espinho duma rosa branca.
Na verdade, todos os momentos são únicos, pensamos nesse instante sentado a sul dos astros... e quando voltamos a pensar já não conseguimos pensar da mesma forma, aquele instante ficou cristalizado, é apenas daquele momento e de mais nenhum... da fera acorrentada na praia ou do deus indulgente que inventou o pecado original.

Se Sócrates pode dizer que o Louçã não tem currículo nem idade, eu posso repor resíduos.

Aqui a atrasado no lançamento do livro de um amigo, muito se disse e muitas interpretações se ouviram a quem se pronunciou. No final, o autor, em roda de amigos confidenciava: não supunha ter escrito o livro de que falaram.
Não o fez em tom de zombaria, antes o contrário, confirmando que uma obra não se esgota quando o seu autor a termina.
Reflectindo sobre as palavras que uma amiga em tempos escreveu, concluí que uma obra, qualquer obra, nunca está completa; passa a ter outras histórias que são as interpretações que cada um lhe faz, e isto justifica-se essencialmente porque o ponto de partida não é o mesmo da chegada. Ou seja: um artista comunica com os outros por uma linguagem diferente, seja a do discurso escrito, das tintas, da pedra... e fá-lo por sentir a urgência de “dizer” algo que de outra forma não é capaz, por sentir a insuficiência das palavras procura imagens ou texturas ou sons... criada a obra, ela passa a ter vida própria e uma lógica própria, ultrapassa o criador retendo deste a assinatura e o desejo de algo. Tentar dizer algo “sobre”, seria quase o mesmo que calar um filho, considerá-lo mudo e incapaz de falar de si e do mundo.
A obra, qualquer obra, tem vida própria, ganha essa vida ainda antes de acabada, quando “diz” como quer ser... um quadro pede cores e traços, um texto foge ao traçado inicial quando as palavras se impõem como uma força que escapa ao controle. O raciocínio a que o autor pretende obedecer escapa-lhe desde logo, nunca lhe tomou as rédeas, antes foi tomado por elas e é preciso ouvir a obra falar, escutar o que tem para dizer.
O autor a falar da sua obra... a obra a falar do seu autor... um diálogo de surdos porque o cruzamento das vozes é enorme e, no entanto, fazemos silêncio para ouvir e tentar perceber.
Claro que nem sempre isto acontece, e então o “leitor” descobre-se no autor e algumas vezes o inverso é também verdadeiro, porque a arte tem vida própria e abre mundos não sonhados, para quem a cria e para quem a recebe.

Porque falham, os tais filhos de pais ricos…

Em comentário no post anterior, o caro amigo, O Pensador, coloca a seguinte questão: -“Fala-se muito da queda de valores, que ”somos filhos de pais ricos e pais de filhos pobres“ mas existe uma verdade cristalina que parece querer passar ao lado de quem defende tal pensamento: - Este país, tal como está, foi construído por nós... os tais filhos de pais ricos!”.

Embora, no caso, e porque não existe criminalidade eu me refira ao episódio onto-gadget, criticando os exageros de exemplaridades dissuasórias e tente, já na caixa de comentários, devido à extraordinária participação dos comentadores, debruçar-me sobre “instituições de programas”, onde se tenta ensinar, e “indústrias de programas”, onde claramente se desensina, não sou avesso a debruçar-me em fronteiras consentâneas com o passado e o presente, já que, a vida em sociedade, é hoje de conflito devido ao papel desregulador do Estado, e comparável a um vulcão em actividade devido ao carácter especial do ser humano, donde não se pode dissociar o sentimento de impunidade, minador das regras orientadoras e dos alicerces morais da sociedade, que alastra na convicção de que tudo é permitido.
Indo directo à questão, nós os filhos de pais ricos (esses pais que nos passaram valores de Ordem: cumprimento das regras estabelecidas, competência de quem dirige, autoridade de quem tem o poder num sistema policompetente onde o laxismo e a libertinagem eram devidamente medidos nas suas valências com preocupações de valores, costumes e virtudes), em nome do progresso, com esforços diversos e frequentemente conflituosos, combatemos alguns valores de então. Valores esses, que funcionavam como instrumentos nefandos de que o medo é excelente exemplo: o medo do professor, do pai, do marido, do policia, do bufo… mas não soubemos passar aos nossos filhos as referências históricas: raízes e modelos, como meio de poderem atingir o equilíbrio interior e poderem contribuir para o bem-estar da sociedade, insistindo no idealismo de soluções miríficas que tomam as pessoas sempre como boas. Ora, foi esta nova mentalidade, onde se questionou se o autoritarismo podia conviver com o ideal democrático do respeito pela ideia alheia, que feriu com gravidade, primordiais e vetustos valores, agravada pelo facto de não termos dado a devida importância àquilo a que se acordou chamar “espaço público”, esquecendo-nos, ou então usando de resistência passiva numa estratégia de inteligência de sobrevivência, da existência de uma máquina de desensino e de deformação que tudo toca com tranquila impunidade: os novos vendilhões: publicitários, argumentistas, produtores, políticos, etc., que vestem de roupagem atraente toda a merda que querem vender e tudo fazem para nos tornar irresponsáveis e obedientes patrocinadores do marketing de salsicharia que, tendo nos media os seus maiores aliados, ocuparam o espaço que deveria ser público.

Bem-aventurados aqueles que nada têm a dizer e assim não fazem o mundo perder tempo.

Se começo a escrever na folha em branco, esta, lentamente, entrega-se à magia dos olhares e vai mudando de tonalidade... apanha as cores das minhas palavras e a rugosidade ou leveza das frases que nela semeio... cresce então um conto... uma foice… uma carta... um rabisco... não sei bem se um amor que já existiu, se os sonhos do mundo ou uma arma carregada de futuro…

Às vezes, com ardor, as palavras saem quase pelo próprio pé, como um sopro humano... outras vezes, com secura, encalham no primeiro passo sobre o branco sem lhe tocarem... mas escrevo sempre o que me vai na alma, ou tento, pelo menos... só assim sei escrever... e quando leio um poema , um conto ou um romance, só me encanto ou desencanto mediante aquilo que sou, penso e sinto...

Nem sempre gosto do que escrevo, mas gosto de ver as folhas em branco pintadas de palavras... minhas, tuas, de todos!... Jamais conseguiria queimar uma dessas folhas, uma qualquer folha em branco pintada de música das palavras nascidas dos ‘verbos’ liberdade de sentir, sonhar e escrever... mas, se por mero acaso não gosto de uma dessas minhas folhas em branco pintadas de palavras, viro a folha, se possível deixo uma em branco para me lembrar do peso do silêncio.

Reflexões Avulsas …porque nem só de pão vive o homem.

Agostinho da Silva era um homem com vários interesses, entre eles, a literatura francesa do século XIX. Nos estudos dos clássicos que publicou, num deles sobre Zola, termina com este pensamento que me permito dizer bem, mil vezes:

"Do caso Zola se pode tirar também uma conclusão interessante para uso da crítica científica: a de que é excelente não se guiar ninguém pelas declarações que os artistas fazem sobre si próprios e sobre as suas obras; de todos os que as lêem são eles os mais sujeitos a enganarem-se quando procuram formular juízos de valor: porque pretendem raciocinar, fazer pensamento discursivo, sobre o que foi puramente estético; e porque pretendem, sobretudo, apontar a sua obra como um produto de raciocínio obedecendo a princípios e a fins. O que é quase sempre falso" - Estudos e Obras Literárias da Âncora Editora p.360.

Tempos atrás, no lançamento do livro de um amigo, muito se disse e muitas interpretações se ouviram a quem se pronunciou. No final, o autor, em roda de amigos confidenciava: não supunha ter escrito o livro de que falaram. Não o fez em tom de zombaria, antes o contrário, confirmando que uma obra não se esgota quando o seu autor a termina.
Reflectindo sobre as palavras que uma querida amiga em tempos me escreveu, concluí que uma obra, qualquer obra, nunca está completa; passa a ter outras histórias que são as interpretações que cada um lhe faz, e isto justifica-se essencialmente porque o ponto de partida não é o mesmo da chegada. Ou seja: um artista comunica com os outros por uma linguagem diferente, seja a do discurso escrito, das tintas, da pedra... e fá-lo por sentir a urgência de “dizer” algo que de outra forma não é capaz, por sentir a insuficiência das palavras procura imagens ou texturas ou sons... criada a obra, ela passa a ter vida própria e uma lógica própria, ultrapassa o criador retendo deste a assinatura e o desejo de algo. Tentar dizer algo “sobre”, seria quase o mesmo que calar um filho, considerá-lo mudo e incapaz de falar de si e do mundo.
A obra, qualquer obra, tem vida própria, ganha essa vida ainda antes de acabada, quando “diz” como quer ser... um quadro pede cores e traços, um texto foge ao traçado inicial quando as palavras se impõem como uma força que escapa ao controle. O raciocínio a que o autor pretende obedecer escapa-lhe desde logo, nunca lhe tomou as rédeas, antes foi tomado por elas e é preciso ouvir a obra falar, escutar o que tem para dizer.
O autor a falar da sua obra... a obra a falar do seu autor... um diálogo de surdos porque o cruzamento das vozes é enorme e, no entanto, fazemos silêncio para ouvir e tentar perceber.
Claro que nem sempre isto acontece, e então o “leitor” descobre-se no autor e algumas vezes o inverso é também verdadeiro, porque a arte, tem vida própria e abre mundos não sonhados, para quem a cria e para quem a recebe.

Posto isto, recordo as palavras que um amigo escreveu na época em que os artistas emergentes - avessos ao ambiente museológico como Nosferatu ao diurno - andavam às turras com o ensino académico da Arte lá por Paris. Escrevia ele então, no contexto da Arte apelidada de “contemporânea”, que era o que se andava a ensinar aos aspirantes a artistas nas Academias: falar de arte é uma pura perda de tempo. Acrescento um ponto de interrogação.

Publicado também aqui.