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A Janela do Pensamento - I


Chovia. No charme do ócio, encostada à janela desenhava traços sem nexo no vidro que recebia a sua respiração. Enquanto isso, ele, no abrigo da chaise-longue escondia-se. Observa-a.
Estava sozinha no dia em que completava vinte e dois invernos. A serenidade encontrada era visível no rosado das faces. Os cabelos negros, caídos sobre os ombros, ainda cheiravam a sais de banho de onde saíra antes de enfiar aquela camisola masculina sobre o corpo nu e, como sempre também acontecia, era com o já conhecido nó na garganta assaltada pelas recordações que esta lhe trazia.
Colocou a mão esquerda sobre o peito e acariciou-o com gestos suaves e cadenciados. O momento, contigente e volátil, era uma paisagem de enlevos.
Pela primeira vez ele mudou-se para uma posição que lhe dava maior visibilidade. Ela continuava absorta nos seus pensamentos, enquanto, como se de uma recomendação bíblica se tratasse, os traços celebrando os sentidos continuavam a sair do seu lânguido indicador para o interior embaciado da janela.
Mudou de posição dando as costas ao seu observador, que inicia então um avanço lento. Quase secreto. Sem vacilar. Sabendo que não seria visto e, pela primeira vez, ela repara que subconscientemente forçara o indicador a escrever um nome. Iluminou-se-lhe o rosto pela imparável percepção e não resistindo leu-o quase em grito: - RODOLFO!?
Assustado com o som inesperado, ele saltou para cima da livreira que ficava na parede fronteira à janela do quarto.
Encostando-se repentinamente à janela, ainda com a mão esquerda sobre o peito, disse: - Gato desgraçado, um dia acabas comigo!

Das afecções perceptíveis à evidente ira (Ensaio)


O dia tinha começado mal e crescera pior ainda. De olhos semicerrados e o cérebro focalizado em blocos de memórias, dou por mim a percorrer as fases sobrepostas da vida distorcendo a lógica e diluindo-a na minha verdade, criando assim uma fenomenologia alimentada por esta base de informação. A função redentora da morte neste espaço-tempo não me traz equilíbrio, a razão não sabe lidar com aspectos duplos onde as sombras cogitam e percorrem movimentos de resposta que não impliquem estádios éticos.
Ponho de lado as violentas energias comprimidas de Tolstói in A Morte de Ivan Illitch e dou uma última puxada no Satisfaction de calibre 46 que abandono no cinzeiro sem apagar. Pego nas chaves do Bentley Continental GT e, já no carro, resolvo viajar até Lisboa e jantar no Pragma que, não sendo um restaurante sossegado devido aos concertos do Casino que inundam a sala, é elegante, discreto e tem uma filosofia gourmet que me agrada.

Entro, olho o candeeiro na entrada da autoria de Leo Marote e penso no que a existência tem a ver com percepção e contacto da forma. Acomodo-me na mesa que reservara pelo caminho e o Chefe aparece com o designado aperitivo do Chef: um delicioso bombom de chocolate recheado com foie gras e compota de cereja. A seguir sugeriu o amuse bouche: um palmier de tomate confitado e azeitona, com compota de legumes assados que desperta o apetite a qualquer um, acompanhado por uma espumante Herdade do Perdigão do Alentejo. Começava bem o jantar. Entre os pratos de peixe e carne, acompanhados por um branco Chardonnay do Chile e um tinto Campo Ardosa do Douro, surpreendo-me com a originalidade de um sorbet de líchias com pérolas de hortelã e termino contrariado com o coulant com gelado de after eight que apresentava um travo difícil de identificar. Com tão pouco se boicota uma refeição.

Enquanto espero pelo café, escuto as conversas nas mesas próximas. Numa delas, uma platinada de meia idade, dizia entre outras minudências, que o segredo da sua juventude era um sérum com ouro da La Prairie que descobrira quando visitou o Chelsea Flower Show, acrescentando com um sorriso hipócrita: – Felizmente, devido ao seu elevado preço, fora do alcance da gentinha. O seu acompanhante que tudo ouvia, tudo aceitava e que eu conhecia da Enoteca de Cascais, ao reparar que os observava, brindou-me um olhar que tentava mostrar que a sua posição ali não era tudo na vida. Numa outra, alguém dizia em tom irado, visível também na cor das suas faces, que desprezava expressões que fediam a presunção e comentava que a ira podia funcionar como uma máscara às deficiências mal emendadas. Concordo! Quantos não inventam ofensas só para se mostrarem indignados… é a parte maldosa do ser humano, a parte que julga sem ouvir ou pensar e trai confianças, destroça amizades e arrasa nações. Os primeiros impulsos da ira reclamam para si autoridade e a forma apressada, ou melhor, preguiçosa, como a construímos, pode acabar por destruir relações humanas e nos enganar a nós próprios. Sei que a ira é uma afecção temerária e poderosa, uma afecção que liquida qualquer fronteira ente a realidade e a ficção e se pode estender a um povo quando este não se dá ao trabalho de pensar.
A ira é uma loucura breve, mas dessa loucura onde poucos pensam o que se diz, advêm por vezes consequências que se perdem no tempo pela incapacidade de se descodificar, concatenar e raciocinar sobre ela num grau mais excelso que, implica ser coerente com um certo número de princípios e valores.

Preparo-me para sair quando oiço na mesa ao lado, a mesma de antes, alguém em voz alterada dizer que, a inteligência ou a razão não é independente da emoção. Viro-me na direcção da voz e encaro com dois olhos negros que me fitam como se algo de decisivo estivesse suspenso; dizem-me aqueles, saberem que eu ouvira o que fora dito e olham-me em desafio. Percebo que a detentora de tão belos corais negros está alterada. Ao seu lado, seguindo o seu olhar, uma sonsa, ansiosa, aguarda para ver se me espalho. Embora eu fosse de poucas falas dando a entender qualquer tipo de obstinação, não administrava o silêncio, gostava sim de conversas módicas sem utilização abundante de pormenores e, por isso, tendo o cuidado de me envolver em modos afáveis, sou directo ao dizer-lhe: - Também não pode ser independente dos nossos princípios e valores.
Não pretendendo continuar a interlocução, deixo a eloquência por ali e saio com um à vontade ditoso, embora apressado, não fosse a interlocutora que se preparava já para ripostar, perder a compostura, incapaz que estava de discernir sobre o que é justo e verdadeiro.

Abandono o Pragma e enquanto me dirijo ao parque de estacionamento, recordo-me das palavras de Aristóteles in Ética a Nicómaco, quando diz: “O que se irrita justificadamente nas situações em que se deve irritar ou com as pessoas com as quais se deve irritar, e ainda da maneira como deve ser, quando deve ser e durante o tempo em que deve ser, é geralmente louvado. Quem assim for é gentil, se é que a gentileza é uma disposição louvada. Porque o gentil quer permanecer imperturbável e não quer ser levado pela emoção, e apenas o sentido orientador lhe poderá prescrever as situações em que deve irritar-se e durante quanto tempo. Ou seja, o gentil parece pecar mais por defeito, porque não é do tipo vingativo mas mais do género que perdoa.” Também, Francis Bacon in Da Cólera, identifica formas de controlar e temperar os hábitos adquiridos para nos encolerizarmos, dando-nos soluções para os evitar, provocar ou apaziguar.

Sorrio ao pensar que me livrara a tempo de algum elemento circunstancial e excessivo envolvido na ira que pairava naquela mesa, sabia que o debate já não conseguiria ser limpo e isento, pois, convencido sou, que a ira é uma força reactiva, o elemento desordenador de algo que ulcerou o espirito; tem sempre uma razão, mas raramente boa, pois, revela-se tanto na dificuldade de obter um bem como de superar um mal e, para a combater, devemos conservar o domínio de nós, como dizia Séneca nas suas Cartas a Lucílio.

Entro no carro e acendo um Gotham Selection No.65 no qual dou duas fortes puxadas, sinto então, finalmente, o jantar terminado. Já no regresso, lembro-me do ensaio que a Maria me pedira e ao qual tinha torcido o nariz naquele jantar de sardinha assada no Torremar em Oeiras, acrescentado que, a minha especialidade, se alguma tinha, eram os contos.


(Publicado na Revista Inútil)

O menino, a mãe e o gene auto-destrutivo.


Um dia quando o céu já era azul e o orvalho da noite ainda se notava, o menino de forma audível e convicção inabalável, disse à mãe que não a amava.
A mãe tropeçando no ar sério do menino, sentiu aquelas palavras como pedras nas mãos de fadas caprichosas e a partir desse dia chorou, chorou, chorou…
Já cansado de tanto a ver chorar e intuindo a sua fraqueza, foi com olhar faiscante e uma vibração quase imperceptível, que o menino disse que não gostava mais dela.
E a mãe julgando-se de parcos méritos; chorou, chorou, chorou ainda mais, muito mais e de forma que parecia torrencial.
Outro dia, o menino surdo à sua dor, disse-lhe estar muito zangado por ela não parar de chorar.
A partir desse dia e em silêncio, tanto mais embaraçoso quanto mais se prolongava, a mãe chorou, chorou e chorou para si, para dentro e no silêncio das facas.
Finalmente, o menino, com trejeitos corporais de gente enfastiada, disse em tom de impune ameaça, que por ela andar sempre tão triste a odiava.
A mãe do menino olhou-o, olhou-se dentro de si e sentiu a inquietação e o receio… e de forma plena, quase sublime, com a mão puxada da alma ébria de lucidez, deu-lhe uma enorme bofetada. Tão grande, tão grande, mas tão grande, que o menino ficou com a face toda inchada.
A partir desse dia a mãe do menino nunca mais chorou, e o menino descobriu que para além de um enorme carinho, a amava desveladamente, em cada dia de céu azul, em cada noite de orvalho.

O Sonho da Maria!


Regressara do carro onde esquecera o telemóvel. Aproximou-se, olhou-o com ar recriminador, mas contendo-se nada disse.
Ele, enquanto acendia um charuto e se recostava na cadeira, disfarçadamente limpava um resto de açúcar que se lhe alojara no canto da boca. Roubara-lhe o sonho... aquele sonho era de facto bonito, belo demais para que ela se não lembrasse, agora nada havia a fazer.

Quinze anos depois, no mesmo restaurante de Lisboa....

Estava intrigada com o cliente da mesa ao lado, não percebia o apetite obsceno que o levava a devorar a última dúzia dos belos sonhos do Chefe Pedro. Por causa dele, nem um tinha sobrado e perguntava-se: - porquê, santo Deus, porque tenho de me contentar com uns simples brigadeiros enquanto aquele psicopata de cérebro liso se empanturra com a especialidade do Chefe?
Assim que a oportunidade surgiu, fez sinal ao gerente para que se aproximasse e de imediato inquiriu-o sobre a presença insólita de tal personagem. Depois de uma breve conversa, ficou a saber que tinha sido um homem importante e um bom cliente da casa, mas alguns desaires na vida tinham-lhe afectado os negócios e tinham-no atirado para aquela situação. Hoje, ao vê-lo no banco do jardim em frente, depois de uma breve conversa, resolvera matar-lhe a fome com aquilo que ele mais gostava; os sonhos do Chefe Pedro que ele não dispensava sempre que antes ali almoçava.

Na posse de tal informação, observou atentamente o homem; verificou que os cabelos em desalinho apresentavam grandes madeixas brancas, rondaria os cinquenta e cinco anos e, por baixo das sujas barbas por fazer, notava-se algo do que tinha sido.
Sentiu-se obrigada a acercar-se da mesa daquele homem, a mesma força que a obrigara naquele dia a entrar naquele restaurante, voltara. Aproximou-se e sentou-se na cadeira vaga em frente do homem que desinteressado a olhou continuando a comer os sonhos que restavam, mas no breve momento em que trocaram olhares, uma insustentável e dilacerante recordação fê-la estremecer: eram os mesmos olhos, agora baços e sem a vivacidade de outrora, mas eram eles, aqueles a quem durante anos dedicou insultos a cada parágrafo de pensamento, ali estavam agora no rosto do culpado dos tempos perdidos e dos sonhos por realizar.

Maria pegou no garfo de sobremesa que estava à direita do indivíduo, este lançou-lhe um breve olhar enquanto a sua mão se aproximou do último sonho, Maria num golpe rápido e cru, cravou-lho com toda a força fazendo com que a mão direita ficasse pregada na mesa. Com um grito lancinante a subir-lhe na garganta, o homem olhou-a. É ela!... lembrou-se num caleidoscópio de emoções enquanto combatia o grito de dor que espreitava, aquela mulher de rosto amargo e duro era a memória de um tempo. Viu-a com os olhos pregados nos seus pegar no último sonho e levá-lo à boca. A sua memória tornou ao dia em que lho tinha roubado e à noite em que, entre as paredes do escritório e contra a sua vontade, lhe destruíra o pequeno mundo.
Soubera depois que a Maria tinha sido internada num hospital, e isso, com as consequências que então advieram, afectaram-no para além do imaginável.

Viu-a largar finalmente o cabo do garfo e levar a mão à boca para retirar uns restos de açúcar que ali tinham ficado. Quando, finalmente, o grito contido se apossou da garganta, já Maria transpunha a porta do Restaurante.

A Arte da Viagem.


Vamos fazer uma história? Perguntou com aparente despropósito enquanto olhava o quadro. Era useira e vezeira nestes pedidos tão inocentes como a frescura das manhãs. Bastava que algo lhe remexesse o subconsciente para o seu anti-racionalismo se manifestar e começar a deambular pela fértil árvore da imaginação.
Eu sabia que ela esperava e sabia o motivo do pedido: aquele quadro de Madoz que muitos veriam com a costumeira e providencial simplicidade de quem não ousa imaginar, não era o seu caso. Tinha pela vida um ávido interesse e via sempre mais, muito mais. Via significações simbólicas, metáforas e imagens onde outros não passavam da primeira e impenetrável camada brilhante. Vivia intensamente as sensações sem nunca achar que a vida era bastante, como se não soubesse ser outra coisa.
Lembrei-me de uma conversa há dias atrás acerca da arte contemporânea e da discussão que hoje se faz sobre a espontaneidade necessária e, agora, aqui estava a admirar a obra deste artista espanhol que dizia a propósito, só lhe interessar a técnica enquanto lhe permitisse obter os resultados desejados.Também ele era fértil em simbolismos estéticos e por isso a sua exposição, aqui na Galérie Fréderic Bazile, em Montpellier, era de um refinado humor surreal que punha à prova a magia da nossa psique, a magia que fascina os poetas e os leitores de poesia.

Bem… ela esperava, e a melhor maneira de viajar é partir e sentir!
Peguei-lhe na mão e dirigimo-nos ao banco em frente da fotografia de um relógio com uma correia que a imaginação simulava já ser uma linha férrea. Aquela imagem já não era física, era alma. Ela já não era corpo, era aura a planar sobre o momento.
Antes de nos sentarmos disse-lhe: - Chegámos a tempo, o comboio estava quase a partir e a manhã está a raiar. Vamos largar por aí fora!
Ela então, soleníssima, olhou-me e disse: - Pai… tens a certeza que este é o comboio do Tua? Pisquei-lhe o olho em sinal afirmativo e coloquei o dedo na boca como que a pedir respeito. Recostou-se no banco. Do seu ponto de partida olhava de sentimento distraído o quadro, quando, quebrando o impenetrável silêncio disse com um sorriso deliciado: - Que bom… adoro a paisagem do Douro…
Também eu… pensei com uma oculta e absurda vontade de soluçar.
…Perde-te, transcende-te minha filha… a meio caminho viajaremos pelos campos extensos do tempo da minha infância. O preço do sonho é a vida.

O Sem Abrigo


Demos de caras no virar da esquina e assustei-me sem saber se havia motivo. Era alto, magro e envelhecido pela pobreza visível nas mãos inchadas das frieiras e nos lábios gretados pelo cieiro. Olhou-me. Primeiro com cara de poucos amigos, mas ao ver-me assustado depressa mostrou um sorriso tranquilizador. Compreendi que a carantonha inicial com que me tinha brindado se destinava a afastar possíveis e inesperados inimigos. Reparei, olhando-o agora mais calmo, que nos braços e na cara as impigens abriam feridas, eram as feridas da pobreza que o marcavam e marcam muitos sem-abrigo nos Invernos rigorosos.
Perguntei-lhe sem grande convicção se precisava de ajuda. Ele tirando a boina suja e safada do muito uso, abanou a cabeça num movimento concordante. Arrependi-me de imediato ao ver-lhe grandes peladas na cabeça e a visão da dentadura negra e desfalcada com que me brindou.Ele avançou um passo e eu recuei um outro, ele então recuou mas eu não avancei, estava bem assim. Naquela confortável distância lancei-lhe algo contrariado a pergunta: - E precisas do quê? Ele olhou-me de novo sem falar e com a mão que antes tinha no bolso do casaco fez um gesto que entendi como um vai-te lixar.
Compreendi que o meu recuo anterior, embora instintivo e talvez por isso, lhe tinha transmitido a mensagem errada do que eu era. Eu simplesmente não esperava aquela situação, não estava preparado, tinha sido apanhado de surpresa. Quem se julgava aquele esfarrapado sujo e doente para me julgar a mim? Recuou nos passos mas um pouco de recuo nos gestos não lhe faria mal algum.
Dispus-me a sair dali e ataquei a intenção em passo rápido quando, ele num sinal de dedos me pediu um cigarro. Naquele momento e pela primeira vez tive pena de não ser fumador, não era, em consequência não tinha cigarros. Ele com novo gesto de mão despachou-me como se dissesse que não era ali desejado.

No dia seguinte voltei. Vinha preparado com um maço de Marlboro no bolso e estava desejoso de ver a cara dele quando lho mostrasse. Agora que já lhe podia dar alguma coisa queria ver se me mandava lixar.
Procurei-o sem resultado, vi nas ruas por perto se lhe encontrava sinal mas nada, devia andar por outros sítios, pensei. Convenci-me que voltaria por ali e nos três dias seguintes voltei com o maço de cigarros no bolso, mas tinha desaparecido.
Finalmente, ao quarto dia, avistei-o ainda ao longe. Estuguei o passo sempre com o olhar a vigiá-lo não fosse ele desaparecer mais uma vez e aproximei-me. Quando se virou vi que não era o mesmo, este era mais novo e sem os sinais de doença do outro, era também mais forte e mais agradável. Olhou-me e sorriu de imediato dando as boas-noites. Aproximei-me ensaiando um sorriso e sempre preocupado em não demonstrar receio. Então, quando estávamos à distância de um braço, cumprimentei-o e estendi-lhe a mão com os cigarros. Ele com o gesto de os aceitar, agarrou-me o braço e desferiu-me um violento soco bem no meio da cara.
A pancada foi tal que fiquei um bom bocado atordoado, devia ter-me partido o nariz, pensei meio zonzo e com dores enquanto o agressor aproveitava para me aliviar da carteira e outros pertences. Felizmente um grupo de Skin Heads que descia do Bairro Alto, ao verem o que se passava, puseram o agressor em fuga seguindo-o em grande correria na direcção do Cais do Sodré. Após os ver desaparecer e ter recuperado a serenidade necessária, desloquei-me com alguma dificuldade à esquadra da zona com o propósito de receber os primeiros socorros e, principalmente, para apresentar queixa devido aos documentos que o agressor levara consigo. Um dos agentes quis vir comigo ao local e apercebi-me que se passava mais alguma coisa quando me pediu para no dia seguinte me apresentar na Judiciária.
Depois de uma longa conversa com o agente destacado para o caso, fiquei a saber que o larápio agressor do dia anterior era suspeito de ter morto um sem abrigo. Os indícios apontavam para a possibilidade de ser o mesmo que procurei.
Ao ver que a informação me abalara disse-me que os familiares do homem vinham a caminho para a identificação, mas era necessária também a minha confirmação de que era aquele homem que eu procurara e que tinha visto naquela noite. Movido pela curiosidade acedi deslocar-me com um agente à morgue para a necessária identificação.
Acabados de chegar fomos informados que o irmão do sem abrigo já o tinha identificado. Dirigimo-nos à sala onde estava o cadáver e ao transpor a porta dou de caras com o meu pai que, lavado em lágrimas, me olhou surpreendido.Atónito, instantes depois e pela sua boca, fiquei a saber que aquele sem abrigo era seu irmão, portanto meu tio. O tio mudo desaparecido e de quem eu ouvia falar desde que me lembrava.
Fazia dezoito anos que nunca mais soubéramos dele, agora, devido a um papel encontrado no bolso do casaco onde alguém tinha escrito que ele era o José Emanuel Laranjeira e que procurava o irmão António Leonardo Laranjeira tinha sido identificado.
Quando interiorizei a informação, já sabia que era essa a ajuda que ele queria. Ao avançar para mim preparava-se para me mostrar o papel, e eu, seu sobrinho, tinha recuado com medo.
Instantes depois compreendi finalmente que não era medo. Era algo pior, mais profundo e enraizado, era um mal de alma.

Sub-coisas ou (vá lá) contos de leitura rápida.


Segundo ela, ele era um medíocre tuga, xico esperto.

Banqueteava-se enquanto ela não parava de o criticar devido à sua propensão para o dislate. Quando azedava, instintivamente, brindava-o com o seu jeito para a associação de expressões, e foi com um sorriso meio trocista meio insolente que lhe pediu o galheteiro.
Ele, conhecendo-a, não resistiu a comentar que os sons polifónicos o incomodavam.
Tudo isto, instantes antes, da faca da carne ter aterrado no seu peito.


Te(n)são. (ou a forma de deslocar o protagonismo para o titulo)


Chovia. Olhavam-se olhos adentro e sabiam que a tensão rapidamente subiria. Quando a mão dele se moveu na sua direcção, já ela se encaminhava para o quarto.

Caminhantes do Apocalíptico


Sentia-se profundamente satisfeita, olhava-se dentro de si e via-se calma, isso era de tal forma reconfortante que só lhe apetecia ficar ali deitada, naquela lassidão dormente com o pensamento a deambular pelo que ocorrera há pouco. Olhou o relógio e verificou que tinha passado uma boa meia hora desde que ele a deixara, sorriu e tentou memorizar cada momento com receio de os perder. Coisa inaudita, procurava nos esconsos da mente cada segundo, cada êxtase, cada vez que se viera. Quantas teriam sido?… Só sabia que fora um verdadeiro apocalipse. Tinha fodido com muitos gajos e gajas, mas como aquele não, aquele era único, proporcionara-lhe momentos que nunca pensou serem possíveis de atingir. Sob aquele aspecto gótico, escondia-se um luxuriante rei do sexo, um mestre que o servia com entendimento.

Com passos lentos caminhou na direcção das vozes bem dispostas e enquanto se aproximava, embora procurasse mostrar-se desinteressada marcando posição de que o ali não era tudo na vida, o pensamento não despregava da visão daquele macho exemplar.
Entrou e verificou que os três já lá estavam, tinham o charme do ócio e conversavam sobre um filme qualquer até darem pela sua presença. Calaram-se então e olharam-na inquiridores e expectantes…
Mostrou-lhes um sorriso denunciador que os fez cumprimentarem-se e motivou a abertura de nova garrafa de champanhe, enquanto Helen, atenta ao que se passava, subia o volume da música. Nunca até hoje, Van Der Graaf Generator, lhe parecera merecedor de atenção.
O marido aproximou-se com um sorriso rasgado e confidenciou-lhe: –Cheguei a pensar que não te querias juntar a nós, começava a ficar preocupado. Sorriu-lhe com brandura e deixou-se conduzir até ao sofá central onde Juvenal a esperava com uma taça de liquido borbulhante.

Chegaram a casa já noite cerrada e pela primeira vez dirigiu-se ao marido: –Então, que achaste da Helen? –Fabulosa! Respondeu-lhe João antes de poder atinar com um tom para voz, acrescentando: –Uma mulher extremamente fogosa, algo tímida no início, mas quando se libertou foi uma experiência fantástica, sem dúvida a melhor parceira desde que nos iniciámos, e saber que esta era a primeira vez deles deixa antever encontros inigualáveis no futuro, talvez os convençamos noutra ocasião a fazermos uma sessão a quatro. E tu, que dizes do Juvenal? –O mesmo que tu da Helen, começou aparentemente com alguns cuidados, mas com o meu incentivo rapidamente se descontraiu fazendo-me ir às nuvens várias vezes, o gajo é excepcionalmente dotado. –Mais do que eu? Perguntou João. –Não me referia a isso, embora o seja uns bons cinco centímetros, respondeu como se falasse do que calhasse, afável mas sem reservas, e continuou, mas não é isso, é a forma como os usa e usa todo o seu corpo, é a forma como ele gosta de mulheres… não esteve ali só a meter-mo, longe disso, ele deu-me o melhor sexo que alguma vez tive.
Ao ver que João tinha parado, com algum resíduo de surpresa pensou que talvez tivesse falado demais, mas a relação deles sempre tinha sido muita aberta e, como bons swingers, sempre falavam do desempenho dos seus parceiros abertamente, sentindo-se privilegiados por terem conseguido ultrapassar todas as barreiras e todos os tabus desta sociedade acanhada e hipócrita, além de que, desde que começaram a swingar, a relação entre eles tinha melhorado imenso e por isso perguntou-lhe: –Que se passa, parece-me que ficaste contrariado com o elogio que fiz ao Juvenal?… – Não, não foi o elogio em si, foi a forma, o jeito e o brilho nos olhos com que o fizeste, nunca te tinha visto elogiar assim nenhum swinger, nem ninguém, dá ideia que desta vez te envolveste de forma diferente.
– E então?… devias ficar satisfeito por finalmente ter encontrado um parceiro que me satisfaz plenamente, coisa que já aconteceu contigo e pelo que me disseste, a Helen, também não se saiu nada mal, pois, dizes que foi a melhor até agora, assim, só pode ter sido excepcional.

João compreendeu as razões de Marta, mas havia qualquer coisa na forma como tinha elogiado o Juvenal, que ultrapassava os limites do usual, via que ela estava diferente por comparação a todas as outras vezes em que depois de se despedirem se distanciavam mentalmente dos parceiros até novo encontro, desta vez não e isso era evidente, evidente até demais, já que, Marta, não parecia desejá-lo junto a si, parecia satisfeita, e ao contrário do que era costume hoje parecia não precisar das suas carícias e de saber que ele ainda a amava, por isso ficou a remoer por alguns instantes em tudo o que se tinha passado. Lembrava-se que quando aceitou a taça de champanhe das mãos do Juvenal, esta lhe ter acariciado a mão e os olhares se terem fixado demoradamente a ponto de Marta enrubescer, ele tinha levado isso em conta de alguma timidez que ela por vezes ainda revelava, mas via agora que não, não era timidez, havia ali algo mais.

Marta não dava conta dos pensamentos do João revelados no silêncio preocupado, os seus pensamentos navegavam já em outras águas. A recordação dos momentos com Juvenal era muito intensa, de tal forma que parecia senti-lo ainda dentro dela… as suas enormes mãos a apalpar-lhe as mamas enquanto uma língua bem treinada a penetrava com carícias suaves intercaladas de explorações mais viris. Gostou especialmente quando ele a comeu por trás sem nunca ter deixado de a massajar.
Estes pensamentos foram suficientes para se sentir de novo molhada, o que a fez sair daquele estado com um pequeno grito sobressaltado ao verificar que o João estava plantado à sua frente a olhá-la e os seus olhos eram reveladores do que sentia, tinha percebido o seu abandono aos pensamentos e tinha constatado o desejo a dominá-la.

Quando falou, espumando raivas de certezas abaladas, atirou com os infinitos de forma bem audível: –Acabou! Não o vês mais!
Marta sentiu um choque dentro de si e o sangue a percorrer-lhe todo o corpo, a sua cara estava agora afogueada. Olhou em desnorteio para o João e chispando centelhas de ódio e raiva, gritou-lhe: –Não te atrevas, meu cabrão de merda! João levantou a mão com intenção de lhe dar um estalo que não chegou a surgir, alguém lhe agarrara o braço com uma força tremenda travando-lhe ali a eloquência do gesto. Espantado, olhou-o, enquanto tentava libertar-se… que faria ali o Juvenal armado em puritano castigador dos seus desbragamentos?…
Este tinha um sorriso trocista quando falou: –Sabes João, não te canses porque nunca irás perceber o vaivém do palco dos nossos actos, o essencial escapou-te. Naquele momento fitaram-se como se algo decisivo estivesse suspenso. Segundos depois ele disse: –Lembras-te do acordo que assinámos no nosso encontro de conhecimento? João lembrava-se, mas não via que interesse poderia ter aquele documento no caso, aquilo era coisa de parcos méritos, não passava, ao que lhe pareceu, de desenhos confusos e só o assinou por eles terem sido irredutíveis. Aliás, ele assinaria qualquer coisa para comer uma mulher com a Helen.
Juvenal, olhava-o agora de cima dos seus dois metros de altura que lhe pareciam o dobro devido à posição que a torção de braço o obrigara a tomar e movimentara todos os seus alertas. Começou a ter receio daquele homem antes afável e de extrema simpatia.
Com um sorriso algo irónico, Juvenal, falou com uma voz sibilosa que o arrepiou: –Somos fragmentos do Uno Mal’ak, enviados do espaço-tempo pela Mãe Impronunciável com a missão de desviar braços dos Anjos da Esfera Eterna para a Celestial ordem Luciferária, e Ela, construiu com o seu desejo iniciático uma ponte entre o espaço-tempo.
João não sabia o que pensar, aquilo tinha algo de satânico e diabólico, os seus olhos seguiam agora Marta que se aproximava de Helen e que só agora percebera no fundo da sala. Sentiu que não dominava a situação porque não a percebia e porque era obrigado por aquele braço de ferro a ajoelhar de tal forma que a sua face esquerda estava espalmada no chão.
Por fim, Juvenal, disse: –Tu ficas, sabemos das tuas qualidades como preparador de almas neste decaído mundo, terás o usufruto da tua estulta impostura, mas serás a Minha Palavra!

O Momento...


Não o tinha premeditado, surgira num repente quando inconsciente abriu a gaveta das facas. É desta!… pensou enquanto mordia o lábio inferior.
Ouviu vinda do quarto a voz do Manuel que gritava: - Então Marilú, é p’ra hoje? E pensou com os seus botões: ai não que não é, é já! A sua mão direita num gesto continuo e repentino agarrou as facas em molho enquanto a esquerda, num movimento único, se apoderou das chaves.
Quando franqueava a porta gritou na direcção do quarto: - Man’el, venho já! Vou ver s'ainda agarro o amolador.

Outros caminhos na dulcíssima distância dos hábitos.


Caminhava com o ritmo marcado, não se lembrava de onde vinha nem lhe eram claras as cores essenciais, mas isso não parecia incomodá-lo por mais irónica que lhe parecesse a distanciação com que encarava o facto.
Era um homem de baixa estatura, de aparência um pouco míope e uma pequena calvície na fronte, vestia fato completo azul-escuro, camisa branca e uma gravata azul ciano. Os sapatos reluziam avassaladores do polimento e, estranhamente, sem uma dor digna de nota, não conseguia deixar de arrastar o pé direito sempre que dava um passo. Essa era a única preocupação denunciada pelas rugas ligeiras em ambas as faces e pelo facto de há muito não se sentir tão bem; aquelas malditas articulações que o apoquentavam há anos hoje não davam sinal, só aquele arrastar do pé que teimava em marcar o ritmo e a dormência do braço do mesmo lado lhe desviavam o pensamento do objectivo da caminhada.

Quando vislumbrou o sopé do monte que se tinha descoberto aos poucos, sorriu pensando que o objectivo estava próximo, ali mesmo à sua frente. Sentia-se bem para encarar a subida até à oliveira que teimosamente decidira medrar naquele cume inóspito longe do ondular secreto das planícies.
Finalmente chegou, há muito que ali não ia mas verificou com satisfação que tudo estava na mesma; a oliveira e o mato rasteiro dobrados pela voz do vento agreste de norte, teimavam em ali permanecer.

Olhava à sua volta quando viu o Carriço assomar por detrás da raquítica oliveira e caminhar na sua direcção de rabo a abanar em sinal de contentamento. Logrou ter visto gotas de água nos seus olhos imediatamente antes de este lhe saltar para os braços quase o fazendo cair.
Quando conseguiu que parasse de lhe lamber a cara e o acalmou, reparou que a trela de corrente estava pendurada na oliveira. O Carriço percebendo de imediato a intenção, de rabo a abanar colocou-se em posição para que o dono o prendesse.
Finalmente, quando estavam prontos para a partida, sem qualquer lamento entendeu o motivo da caminhada: algo lhe dissera que o Carriço o esperava naquele local onde no ano passado o havia enterrado. Não quisera partir sem o dono, esperara por ele, pelo seu tempo, e naquela tarde de Outono, um raio de sol estival que pareceu absorver a liquidez das rochas uniu-os como frutos da mesma árvore.

Apanhado com mirabolante facilidade na teia da loucura.

A mulher que rondava os trinta anos gritava para quem a queria ouvir que, aquele ali, apontando um indivíduo dos seus quarenta com ar de redfish baratuxo, era um patife. - Enganou-me, gritava, e enquanto puxava pela mão de uma rasteirinha de olhos arregalados, continuava: - E agora este merdas nada quer dar para a criança, nem sequer o nome. Bandido! Filho-da-puta!…
Os curiosos que se tinham juntado para assistir ao desacato, possuídos daquela facilidade que nos caracteriza em tomar partido sobre qualquer polémica, davam a sua contribuição condenando já o homem, a maioria, dizendo que há gajos que são uns bandidos, querem é dar uma queca mas depois não assumem a responsabilidade, outros, defendendo que a criança não tinha culpa dos erros dos adultos e, era imoral, no mínimo, não ter o nome do pai. Tudo isto dito de forma sintética e desengordurada.

O alvo da confusão estava estupidificado; ora olhava a mulher, ora olhava as pessoas, sabendo estar metido numa grande alhada. Por vezes, nos milimétricos silêncios tentava dizer qualquer coisa, mas logo a mulher teimava em lhe estragar o encanto das palavras berrando-lhe a plenos pulmões que ele era um bandido, que a tinha enganado, que as havia de pagar, que a mãe bem a tinha avisado… Tudo isto numa gritaria tal -como se lhe despejassem em cima calhaus a ferver, que se ouvia de uma ponta a outra da Gare do Oriente.

Não cheguei a saber para quem ficaram os méritos e os deméritos, ou tão-pouco quem arcou com a fúria daquelas gentes, embora, o alvo, fosse mais óbvio do que a boa música ter a ver com o “soar bem”, não assisti ao resto da discussão, não sou grande apreciador, estas apertam-me o peito e causam-me tal ansiedade que me leva directamente à cerveja, por isso fui andando.
Enquanto me afastava, continuei a ouvir os impropérios da mulher que sobressaíam do vozear da multidão que ia engrossando à volta dos desavindos.

No dia seguinte, fazendo o mesmo percurso, reparei ainda de longe que havia outra confusão precisamente no mesmo local. Enquanto me aproximava, reconheci os gritos da mulher que gritava a plenos pulmões os mesmos impropérios da véspera; que ele era isto, que ele era aquilo, que não dava nada à criança… e os curiosos à sua volta, tal como antes, tratavam de tomar partido e dar a sua opinião.

Tudo igual ao que tinha visto no dia anterior com um pormenor que fazia toda a diferença e tornava cândida qualquer tese que tivesse desenvolvido. Incrédulo, avancei para me certificar e constatar sem sombra de dúvida que este era mais forte e mais novo que o outro, até mais alto, este homem, era óbvio, nada tinha a ver com o redfish baratuxo de ontem.

Saí dali a correr, pelo caminho, sorridente, dei uns pontapés na fronteira artificial dos moralismos que ontem se tinham encavalitado, sabia que já me esperava um arroz de lingueirão com jaquinzinhos fritos.

Nota: Conto revisto e republicado porque sim.

O Maneirinho


Dircelina, lembrava-se bem de quando chegou com a maleta de mão trazendo por companhia a sua cor preta, a pouca escolaridade e o estigma de um país em guerra. Vinha para trabalhar neste que por lá era visto como a árvore das patacas e, por via disso, a esperança fizera-lhe companhia, aconchegara e soprara-lhe docemente no peito dizendo-lhe em surdina: vais conseguir. Para trás, para lá dos ventos vindos dos mares, ficava a família: mãe, duas filhas pequenas e quatro irmãos. Dois deles estropiados. Era tudo o que a guerra não tinha levado e nisso não queria pensar. Aquela era a altura das grandes tarefas, o momento que ambicionou e não tinha receio de confrontar. Para isso contava com outra grande aliada: a vontade inabalável de vencer.
Aquele emprego que um antigo amigo do seu pai lhe arranjara não era o que pensava, esteve para o recusar, não o fez pela miserável fome que já há dias a acompanhava, mas hoje, dez anos passados, sabia que tinha ganho a grande prova. A tristeza do primeiro dia em que obrigada se deitou com um cliente e depois com todos os outros que se seguiram, eram passado assim como as lágrimas que abriram sulcos nas suas faces de ébano.
O desejo pelo seu corpo esguio e musculado do trabalho na sanzala, tinha-lhe garantido uma posição privilegiada entre as escravas do Maneirinho e, desde muito cedo, traçara o seu plano.
A vinda da família acontecera já depois de ter conseguido casar com o Maneirinho, a seguir, foi um passo até o convencer a investir o dinheiro ganho com a escravatura num negócio que ela e a mãe passaram a controlar, por fim, ele começou a gostar daquele chá que, com receita da sua avó, a mãe lhe ensinou a fazer e que provocava no Maneirinho o estado esfuziante de alucinada embriaguez.
Foi nesse estado que o convenceu ser ele capaz com a força do querer, parar o rápido Lisboa-Sintra.
Postada no apeadeiro ainda lhe notou incerteza no olhar, um despertar a destempo quando, no meio da linha, viu o comboio aproximar-se.
Por fim, num murmúrio quase inaudível, quase indizível, melodiosamente disse: faz as tuas contas com o diabo.

Nota: Conto revisto e republicado porque sim.

A Orgia Estéril da Mentira… (*)

Descalcei-me e enterrei os pés na areia húmida da chuva que caíra pela manhã. A sensação, enquanto olhava o mar cinzento e chão, dos grãos de areia entre os dedos era relaxante … era o momento de preia-mar, onde pequenas ondas num bailado repetitivo lambiam a areia e bandos de gaivotas esperavam pela noite. Muito cedo, pensei… falta uma boa hora para o crepúsculo as abraçar… o céu, carregado de nuvens, denunciava que a noite não seria serena nem de luar.
Embriagado indolentemente pelo cheiro da maresia e o som cadenciado da rebentação, via-a ao longe e fixei-a enquanto caminhava na beira do mar. À medida que se aproximava admirei-lhe a forma esguia, o cabelo negro solto ao vento e o vestido leve. Vinha descalça, com uma toalha azul pendendo da mão. Nisto, e sem que algo o fizesse prever, virou-se repentinamente e caminhou na minha direcção.
Em choque de prazer, olhei-a com inconsciente e estéril pensamento. Que quereria aquela insólita e linda sereia de mim?… Parou quando chegou perto e depois de um instante cumprimentou: - Olá, boa tarde. Respondi-lhe dizendo que a tarde não fora grande coisa até àquele momento, mas tudo indicava que podia melhorar. Ela sorriu mas nada disse, estendeu simplesmente a toalha uns três passos à minha frente e sentou-se admirando o mar. Aproximei-me e sentei-me a seu lado, guardando uma distância educada mas não conservadora, já que, tinha sido ela que convidativamente se aproximara.
Puxei um cigarro sem parcimónia com a secreta esperança que um novelo de fumo amenizasse a conversa e, pensando que no linguajar é que está o ganho, acendi-o. O clic-clac clássico do zipo de estimação, pareceu interessá-la. Perguntei-lhe se queria um cigarro… aquiesceu estendendo a mão. Passei-lhe o maço donde tirou um voltando a estendê-la pelo zipo que me apressei a colocar na alva e frágil mão que senti quente e macia. Acariciou-o como uma apreciadora enquanto lhe admirava a finura de dedos. Acendeu-o, protegendo a chama do pouco vento com uma delicada mão em concha e após uma forte puxada, perguntou-me o que fazia ali… respondi-lhe que descansava de um dia demasiado complicado, e, enquanto o fazia, embalado na orgia do prazer manobrava de forma a desenvencilhar-me da aliança que teimava em não sair do anelar. Nisto, num movimento rápido e inesperado, virou-se, e mostrando uns lindos olhos de azul inocente, disse que ia ali todos os dias àquela hora num ritual que se habituara a cumprir havia anos.
Eu sabia que ela me tinha visto na tentativa infrutífera de tirar a aliança e, ao ser apanhado, tinha enrubescido desmesuradamente como sempre acontecia quando era apanhado em falta no esvoaçar da minha capa de herói. Ela não desviara os olhos e eu não era capaz de a encarar. Refugiava-me na linha agora negra do horizonte e esperava que a brisa deste fim-de-tarde, num sopro arrefecedor, me devolvesse a cor original.
O tempo escorria e eu entregue à minudência matemática de contagem das ondas tentava, num pretendo impoluto, afastar qualquer culpa; eu era homem e ela uma mulher belíssima, a tentação tinha prevalecido, objectiva e subjectiva como todas as máscaras da alma humana.
O silêncio pesado durava há muito quando ela inesperadamente me perguntou: - Que faz aqui a esta hora, não é casado? O rubor voltou ainda mais desconfortável qual punidor da velhacaria anterior. - Sou e tenho dois filhos, acrescentei como que a penitenciar-me da nabice anterior já que o propósito estava frustrado. - Ama a sua família, voltou a perguntar. Após um instante respondi-lhe que sim, não valia a pena mentir, só faria papel de estúpido.
Estendeu então a mão para me cumprimentar, dizendo: - Chamo-me Marta, sou cega de nascença.

(*) Conto revisto e republicado a propósito do post anterior e porque me apeteceu.

O Achado do Espaço Suspenso.

Jaime De La Cruz, homem de estatura mediana, corpo firme, queixo resoluto e já entrado na idade, imigrara dos EUA há 15 anos. Costumava dizer com voz grave e num ingles espanholado que, tinha trocado San José no Condado de Santa Clara por Cascais.
A fortuna que se lhe reconhecia, tinha-a feito em San Francisco, onde adquirira um refinado gosto para os objectos, como o Mercedes 300 SL Gullwing de 54 que usava nos seus passeios pelo Guincho, ou o Aston Martin DB6 que utilizava quando era forçado a deslocar-se a Lisboa.

A história que vos conto, teve a sua origem quando Jaime De La Cruz fazia o habitual passeio matinal de oitocentos metros que, eram duas larguras da Praia da Adraga, sempre que o tempo permitia.

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O Natal da Dona Amélia

O que se falou na altura, foi que o filho mais novo da Maria Ruiva, o Joaquim Sesta, o viu. – Disse Amélia com o vagar das gentes serranas, enquanto se balouçava na cadeira comprada um ano antes em terras de Espanha e que, não se revelara tão cómoda como então lhe parecera. Edite, a irmã mais nova cinco anos, sentada no escano atiçava o borralho onde assentara a panela com as feijocas… momento depois, seguindo o fumo que saía pelo tecto de telha-vã, foi dizendo sem emoção, como se de uma ladainha se tratasse:- Foi quando andava a encher os balaios nas terras do Zé Pedro e desde esse escusado dia, nunca mais ninguém o viu.

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Regressado para o devir

A criança olhou na sua direcção e desviou desinteressada a atenção. Não tinha ainda estrutura para desenvolver o subjectivo do enigma que era um estranho aventurar-se a entrar no seu bairro. Tivesse, e depressa correria para casa.
Fernando viu-o e percebeu que o desinteresse resultava de ainda não ter adquirido o traço fino do aguilhão que vicia a memória, ganhá-lo-ia rapidamente, sabia-o bem, tão bem, como conhecia aquele bairro. A memória não actua separada, é alimentada por um campo que por sua vez alimenta a sua base de informação, e sabia que perderia também a noção de segurança; ganhando conhecimento sobre a precariedade da existência.

Canto de Contos

Guia dos Membros do Canto de Contos.



Bill - Realidade Torta
Clarissa - Instantes Clarissa
Conteúdo Latente - Conteúdo Manifesto
Ipslon - Tetros
Isa - Piano
Maite - A quilómetros de mim
Parrot - Incomplete
Pedro Pinto - Sexta Feira-Thales
PiresF - A Rua dos Contos
Raquel - (…)
Rui Semblano - A Sombra
Vanessa - Voz Calada




As palavras

Ao escrever sobre o que sentimos acabamos por vezes a sentir o que escrevemos porque o escrevemos. Explico-me. Às vezes, escrevem-se coisas porque vão umas com as outras, porque rimam significados ou simplesmente ficam bem. Porque as palavras procuram outras de uma certa maneira irrecusável. E depois já está. As palavras possuem esse poder de moldar o que a mão ao escrevê-las queria dizer. Escrever não é um acto de um sentido só, uma espécie de rua de sentido único entre o que temos dentro e o que aparece de fora, escrito. Este «de fora» que parece ser a escrita, se molda o que depois ao ler sentimos, é porque está ainda «de dentro». Mas às vezes o cansaço apodera-se de nós, e temos vontade de parar. Não sei se de escrever, se de sentir, possivelmente de estar sempre a pensar nisso. Parar: vontade de fechar os olhos e ver.

Dylan Thomas - A mão ao assinar este papel.


Logos da autoria do Rui Semblano

O Momento...

Não tinha sido premeditado, surgira num repente quando inconsciente abriu a gaveta das facas. É desta, pensou enquanto mordia o lábio inferior.
Ouviu vinda do quarto, a voz do Manuel que gritava; Então Marilú, é p’ra hoje? E pensou com os seus botões: ai não que não é, e é já.
A sua mão direita, num gesto repentino, agarrou as facas em molho, enquanto a esquerda, num movimento único, se apoderou do molho de chaves.
Quando franqueava a porta, gritou na direcção do quarto: Manel… venho já, vou ver s'ainda agarro o amolador.

Os Falcões.

Os Sintrenses notaram que algo se passava na sua pacata Vila, aquele helicóptero já há muito que sobrevoava a serra, enquanto cá em baixo na Quinta da Penha Longa, chegavam em limusinas de vidros fumados os convidados com escolta policial, outros vinham em helicópteros.
A protecção era feita por agentes de serviços secretos como o MI6, CIA, Mossad e agentes policiais portugueses.

Entre os convidados contavam-se chefes de Estado, chefes de Governo, o presidente e comissários europeus, chefes de corporações transnacionais, gestores, professores universitários, investigadores e até jornalistas, que podiam unicamente falar entre si sem correr o risco de violação do código de silêncio, que se baseava numa regra estabelecida pela Chatham House, organização oficialmente conhecida por The Royal Institute Of International Affairs e em que; os participantes são livres de usar a informação recebida, mas não a identidade nem a filiação dos oradores, nem o que qualquer outro participante possa ter revelado, existindo sempre o «off the record» nos casos em que a regra não é suficientemente restritiva, determinando a informação que podia ser usada.

Vinham debater o devir do mundo, a recato de ouvidos e olhares indiscretos. Editores e patrões dos media mais poderosos, asseguravam que nada seria noticiado sobre o acontecimento, mas que, igualmente, tudo seria difundido sobre a construção da realidade aí produzida e segundo os princípios do neoliberalismo fixados por Friedrich von Hayek, que determinava a criação de instituições, fundações e outras organizações sob o manto de corporações transnacionais, que produziriam ideias, influencias e quadros com o fim de formar os herdeiros que lhes haviam de suceder, nas empresas, no campo político, nos meios académicos e no campo dos media, segundo as teorias do economista austríaco, pai do neoliberalismo, feroz crítico da «justiça social» e defensor do «Estado mínimo» conforme proclamado na sua obra “La Constitution de la liberté”.

David sabia de tudo isto, tinha suado ao mover influências para se conseguir infiltrar nesta reunião. Finalmente conseguido o objectivo, agora as suas mão suadas estavam enterradas nos bolsos do casaco, com o propósito de não denunciarem o seu nervosismo, sabia que sairiam desta reunião como de todas as outras, importantes decisões, como a criação da The United Nations Association, o Business Council for the United Nations, ou o Clube de Roma através do qual tinha finalmente conseguido ser convidado, depois de, e com alguns subornos, ter entrado no núcleo denominado tt30, e daqui, conseguir que a Trilateral portuguesa com uma quota de cinco membros e, por influência de Peter Sutherland presidente da estrutura da Europa o convidasse.

Olhava agora para o tabuleiro de acção dos poderosos do mundo, que, tal como no xadrez, carrega a carga simbólica intrínseca ao conjunto das peças. Reis, governantes, poder económico, poder militar, poder simbólico, cavaleiros e peões, todos estavam representados.

David tentava descortinar a representação norte-americana que sabia ter ali um domínio preponderante como noutras instâncias, e avistou a um canto longe dos olhares curiosos, dois membros do Council on Foreign Reletions, reconhecia também dois presidentes do Banco Mundial um do banco Central Europeu, um secretário-geral da Nato, dois membros da Comissão Europeia, para além de diversos sindicalistas, senadores, conselheiros políticos, dirigentes partidários, magnatas e banqueiros.
Sabia que o grupo não se limitava a seleccionar os governantes, a abrir-lhes a porta do poder ou a indicar-lhes a saída, controlava também os negócios, manipulava as finanças mundiais e determinava a evolução da economia, garantindo a reprodução do seu poder e o enriquecimento dos seus membros.

Esperava ansioso que se discutissem temas como em reuniões passadas, sabia bem, que antes do debate da União Europeia, já eles tinham discutido a moeda europeia, o Tratado de Nice, a Constituição europeia ou até a guerra do Iraque que esteve na agenda de diversas conferências.
Como esperava, as conferências incidiram sobre o Irão, o Iraque e o Médio Oriente em geral, sobre a China, a Rússia, o estado da economia mundial etc.
Ensaiavam jogadas no xadrez global, refinavam a sua arte de guerra, fazendo avançar os cavalos e as torres, e o objectivo era para si claro: policiar o mundo e multiplicar os seus lucros.

Para David a onda de choque viria depois como uma besta bruta, quando teve acesso ao sofisticado equipamento que sob risco escondera na Sala Rosa e que no recato da casa de um amigo e companheiro de infância se dispôs a ouvir. Não lhe era possível identificar as vozes, mas o que ouvia ultrapassava tudo o que poderia esperar.

Sr. A – Nós em Tavistock, consideramos a população em geral incompetente para educar os filhos e como sabem propomos como sociedade ideal aquela em que os filhos são separados da família após o nascimento e educados pelo Estado, em centros onde viverão, mas a UNESCO não está a seguir o programa objectivo de destruição do sistema educativo com a celeridade necessária, se bem que, a população responda inadequadamente à crise tal como os nossos engenheiros sociais esperavam, ao que o Sr. B contrapunha que não era um objectivo fácil, mas que iria ser acelerado agora que a campanha antitabaco lhes tinha revelado definitivamente que o reforço positivo era a única maneira de provocar, nas pessoas a que é aplicado, o comportamento desejado, sem ressentimentos nem rebeldia, e de uma forma estável.
O reforço positivo está a ser aplicado ao estilo do “Admirável Mundo Novo”; interessa dar qualquer coisa positiva às pessoas quando cumprem as normas impostas, mas impedindo qualquer possibilidade de essas normas serem analisadas ou questionadas.
Interessa que os técnicos que aplicam as campanhas que para nós são apenas mais uma experiência de submissão, acreditem fervorosamente na sua necessidade e isso acontece com a campanha antitabaco, veja a Irlanda, onde tínhamos dúvidas e a Espanha, considerados factores de risco extremo… amanhã, se um “louco” se lembrar de acender um cigarro no metropolitano ou no TGV, será olhado de imediato como se se tratasse de um leproso e alguém irá aproximar-se dele para lhe dizer educadamente, que é proibido fumar.
Entrou então na conversa o Sr. C. referindo que o futuro do desenvolvimento das comunicações e da tecnologia, aliadas ao profundo conhecimento actual da engenharia (manipulação) do comportamento, está a favorecer o que, noutras épocas, foram apenas intenções não consumadas e que hoje se estão a tornar realidade. Cada nova medida, por si só, pode parecer uma aberração, mas o conjunto de alterações que fazem parte do processo contínuo em curso, constitui uma progressão importante para a submissão total.
A batalha trava-se neste preciso momento e estamos a ganhá-la, a fase dos microchips implantáveis, o rasteio por satélite, as etiquetas de identificação de radiofrequência e os cartões inteligentes são um êxito, agora vamos avançar para a fase 5, que se iniciará com uma onda de sequestros de crianças, com o objectivo de conduzir os pais a uma situação de insegurança e ansiedade tão terríveis, que eles próprios solicitarão a implantação de microchips nos filhos para os conseguirem localizar permanentemente.

David estupefacto pediu um cigarro ao amigo, tinha deixado de fumar há dois anos e pensou na natureza humana e em como o poder corrompe, na razão pela qual, ditadores, oligarcas, juntas militares, imperadores e tiranos, ao longo da História, procuraram censurar e sufocar a livre disseminação de opiniões e informação.

Os falcões não querem que saibamos o que planeiam fazer connosco.




Este conto de ficção, é fruto da compilação, transcrição até de frases completas de várias leituras, como: Biografias e/ou currículos; história, missões e objectivos das organizações citadas, sítios na Internet de instituições, organizações internacionais, sítios na Internet com artigos e bibliografia sobre Bilderberg, sítios na Internet com informação sobre a lista de conferencistas, designadamente, o Bilderberg.org, criado e mantido por Tony Gosling, a Wikipedia, the free encyclopedia online, e o livro de Daniel Estulin – The Road to Tyranny: Total Enslavement.