– Ó Ferreira, afinal não percebeste nada!
– Percebi, percebi, não percebi foi no sentido que tu querias que eu percebesse.
– Não percebeste não! O homem só fez a apresentação da candidatura, não apresentou programa nenhum pôrra, percebeste agora?
– Pois foi Aniceto. Então quer dizer, e seguindo o teu raciocínio, que as apresentações são para mandar recados para o interior dos partidos e não para apresentar ideias? Se é assim, acho uma perda de tempo, parar um país inteiro à hora do jantar.
– Perda de tempo? Perda de tempo é este teu post pá, todo ele muito fraquinho, escreves uma série de linhas mas vai-se ver... não dizes nada, nem isto, nicles.
– Ó Aniceto pá, não digas isso, eu faço o que posso, mas só sai o que sei, é como no poema do Nemésio, aquele do Pilriteiro.
– Digo, digo, e digo mais: foi uma canalhice tua teres baseado o teu post em ofensas físicas para falares mal do gajo.
– Canalha? Canalhice? O que aí vai ó Aniceto, vê lá mas é se fazes um bocado de recuo, que me estás a provocar.
– Não recuo coisa nenhuma, o que está dito, está dito.
– Sendo assim, digo-te que eu só quis demonstrar, que o homem que quer ser nosso presidente e que portanto vai ter uma imagem pública aquém e além fronteiras, não pode espumar da boca. Fica feio, é desagradável para quem vê, percebes? Estás a ver o gajo a falar com a Rainha Sofia e ela a virar a cara para o lado enojada!?
– Percebo! Mas ó Ferreira, a competência não se mede pelo excesso de saliva.
– Claro que não, mas para isso era preciso que o homem fosse competente.
– Ok. Ferreira, podes não concordar com as ideias do homem, escusavas era de ser tão brejeiro.
– Brejeiro eu!? Quais ideias? Ó Aniceto, ainda estamos a falar do mesmo homem, não estamos?
– Claro que estamos, parece que o sol te fez mal.
– Bem, Aniceto, a única ideia que ele deixou, é que não faz ideia nenhuma, tem talvez uma vaga ideia. Pelo menos foi o que percebi como resposta à pergunta do jornalista sobre a interrupção voluntária da gravidez.
– Está bem, até posso concordar que o discurso foi fraco, mas aguarda mais algum tempo para o homem apresentar o programa e depois logo falas.
– Ó Aniceto, estás-te a passar, até parece que eu tenho estado no estrangeiro e não conheço o homem. Ó pá, eu estive cá durante os dois mandatos do gajo, estava era à espera, que depois de tanto tempo a pensar, o gajo apresenta-se qualquer coisa, qualquer ideia nova, como o gajo está na mesma, fiquei desiludido.
– Lá estás tu, já que sabes tanto, porque não dás tu as ideias.
– Porque não sou candidato, essa é boa ó Aniceto. Quem se candidata é que tem de mostrar que tem ideias, para conquistar e ficar com o nosso voto.
– Tens razão, na verdade também não tens de ser tu a apresentar ideias.
– Pois.
– E o Sampaio ó Ferreira, votaste nele, achas que governou bem, achas? Eu cá não acho, porque não fazem o meu género as jogadas politicas.
– Mhhhh!... Deves estar a falar do Lopes, mas não te vou dar troco que isso não era uma conversa, eram logo duas. Olha, eu gostei do Sampaio, não com tudo o que ele fez, mas no somatório final dos dois mandatos, até acho que foi um bom presidente.
– Eu também acho que o Cavaco não é um herói salvador, não estou à espera que ele resolva tudo, pelo menos em dois tempos, mas olha: achei muito nobre, ele ter suspendido a sua filiação do partido, porque não nos devemos esquecer que o cargo de presidente devia ser apartidário.
– Pois devia, dizes bem, pois devia.
– Mas ó Ferreira, afinal, porque é que não gostas do homem?
– Porque tenho memória pá, e lembro-me que foi ele que conseguiu a efeméride de juntar as duas centrais sindicais numa greve, que foi ele, que conseguiu, que milhares de camionistas fechassem a fronteira de Vilar Formoso, que conseguiu que a classe médica estivesse em greve durante quatro dias, que foi ele, que fez aprovar a Lei de Bases que acabou com a reforma agrária, que provocou o buzinão na ponte, queria dar-nos cabo dos feriados, Já chega ou queres mais?
– Olha, vem ali a Isilda.
– Olá… então, andas por aqui a fazer tempo, ou à espera do namorado?
– Nem uma coisa, nem outra, estava ali a ouvir a conversa, porque vocês falam alto pra carago e olha que também não gosto do gajo, nem dele, nem do meu chefe, nem de me levantar cedo.
– E estás no teu direito, ou não estivéssemos numa democracia.
– Olha, eu até acho o Soares um senhor, mas não sei se será um bom presidente.
– Pois eu sei. Sei que também não será.
– Devia era haver sangue novo, estes gajos já cheiram a mofo e a naftalina.
– Eu acho que cheiram a mais, cheiram à merda que já fizeram, mas não sei... esta minha rinite alérgica ás vezes incomoda-me um bocado.
– Ó Ferreira, eu não posso obrigar ninguém a pensar como eu, mas também não admito que me queiram obrigar a mudar de opinião.
– Comigo estás descansada que estás muito bem assim, desde que não votes Cavaco.
– Nesse nem pensar! Bem, tenho de ir, até amanhã.
– Até amanhã Isilda! Vai pela esquerda, que na direita chove. Boa moça esta Isilda, não achas ó Aniceto? Olha este olha, onde vais tão apressado ó Raimundo?
– A lado nenhum, só agora é que ouvi de que tratava a vossa conversa.
– E então?
– Eu estou contigo. Mourinho para Presidente.
– É pá, isto é um ninho da esquerda, a Isilda até diz que o Soares é um senhor, só se for dos diamantes.
– Espera aí um bocadinho ó Aniceto, que já te atendo, não te vás embora. Ó Raimundo, essa coisa do Mourinho à presidência não me cheira lá muito bem, o homem sabe de futebol, lá isso sabe, é poliglota, é inteligente, dá nos cornos aos ingleses como ninguém, mas daí a presidente… Nã, o gajo é muito cagão, olha, só se fosse para presidente do nosso Sporting, com a massa que o gajo tem e com aquela carola para o futebol, estás a ver…
– Já vais?
– Melhor dizendo, já fui.
– Desculpa lá ó Aniceto, estavas a dizer o quê do Soares?
– Do Soares já disse, mas quem deve ter muito a dizer é o policia que é obrigado a estar 24 horas por dia à porta dele e nem uma cadeira tem para se sentar, já para não falar dos outros dois que ele mandou à merda. Mas não é disso que eu quero falar: eu já percebi que não gostas do Cavaco e eu não sou de todo de esquerda, mas respeito todas as ideias e acho que o debate é fundamental.
– Finalmente estamos a ficar esclarecidos
– Claro, porque eu acho que existe muita hipocrisia em torno da esquerda, para eles ideias diferentes ou são fascistas, ou são de asquerosos e perigosos capitalistas. É a assimetria deste país, admite-se com facilidade que existam partidos terroristas como o MRPP e depois as manifestações dos terroristas da Frente Nacional, são recebidas à pedrada, onde é que está a liberdade? Eu posso não gostar, mas respeito.
– Ó Aniceto, eu sou defensor do direito à opinião e do pluralismo de ideias, mas em relação ás ideologias extremistas, alto e pára o baile, que com esses não sou pôrra de democrata nenhum.
– Ok ó Ferreira, ainda havemos de acabar esta conversa, mas agora não dá para continuar porque estou com pressa. Está aí o Ricardo, fica à conversa com ele.
– Comigo? Eu acho que vocês já discutiram tudo.
– Vá lá Ricardo, não te acanhes, diz lá o que pensas.
– Então, sendo assim, cá vai: Eu acho que este governo precisa de rédeas urgentemente, está a estender-se como um polvo a todos os sectores da administração pública, altos cargos do Estado, Sector empresarial, enfim... um despotismo partidário que pouco esclarece os cidadãos e não raras vezes os confunde, merece um factor de equilíbrio, que neste momento apenas perspectivo num órgão de Estado como é o PR.
– Acho que tens razão, concordo contigo.
– Por isso acho que o Cavaco é acima de tudo um voto útil na e para a democracia e um não ao absolutismo burocrático-partidário que o PS a pouco e pouco instala no nosso país...
– Pronto, pronto Ricardo, ias tão bem e agora estragas-te tudo, lá vem outro com o Cavaco. Ó pá, eu já disse que não gosto do gajo.
– Mas porquê? Vá diz-me, que essa coisa do não gosto, não gosto e pronto, é para meninos.
– Já que insistes, e aqui que ninguém nos ouve, cá vai: Ricardo, eu tenho receio daquele homem, o Cavaco na minha opinião tem tiques Salazaristas, é um tecnocrata puro e sem ideologia, e gajos que como ele e à boa maneira portuga que dizem “a minha politica é o trabalho” e pouco dados a ter dúvidas e a enganarem-se, cheiram-me mal à distância. Depois é um homem arrogante nos modos, e ao contrário do Salazar, foi até um pouco promissor Ministro das Finanças no tempo do Sá Carneiro, lembras-te? Só foi líder do PSD en passant, revela sistematicamente não dar crédito aos partidos, que são a base da nossa democracia, quer se goste ou não, logo, não posso concordar que seja ele o nosso voto útil, mais, qualquer um que na segunda volta se perfile contra ele, esse sim, será voto útil, pelos motivos atrás invocados.
– Pôrra Ferreira, falas que te desunhas, fiquei até sem tempo para te responder. Tenho que ir ali à loja da Arlinda antes feche, noutra altura continuamos a conversa.
– Então apressa-te pá, que ela deve estar quase a fechar.
– Até amanhã.