Outros caminhos na dulcíssima distância dos hábitos.


Caminhava com o ritmo marcado, não se lembrava de onde vinha nem lhe eram claras as cores essenciais, mas isso não parecia incomodá-lo por mais irónica que lhe parecesse a distanciação com que encarava o facto.
Era um homem de baixa estatura, de aparência um pouco míope e uma pequena calvície na fronte, vestia fato completo azul-escuro, camisa branca e uma gravata azul ciano. Os sapatos reluziam avassaladores do polimento e, estranhamente, sem uma dor digna de nota, não conseguia deixar de arrastar o pé direito sempre que dava um passo. Essa era a única preocupação denunciada pelas rugas ligeiras em ambas as faces e pelo facto de há muito não se sentir tão bem; aquelas malditas articulações que o apoquentavam há anos hoje não davam sinal, só aquele arrastar do pé que teimava em marcar o ritmo e a dormência do braço do mesmo lado lhe desviavam o pensamento do objectivo da caminhada.

Quando vislumbrou o sopé do monte que se tinha descoberto aos poucos, sorriu pensando que o objectivo estava próximo, ali mesmo à sua frente. Sentia-se bem para encarar a subida até à oliveira que teimosamente decidira medrar naquele cume inóspito longe do ondular secreto das planícies.
Finalmente chegou, há muito que ali não ia mas verificou com satisfação que tudo estava na mesma; a oliveira e o mato rasteiro dobrados pela voz do vento agreste de norte, teimavam em ali permanecer.

Olhava à sua volta quando viu o Carriço assomar por detrás da raquítica oliveira e caminhar na sua direcção de rabo a abanar em sinal de contentamento. Logrou ter visto gotas de água nos seus olhos imediatamente antes de este lhe saltar para os braços quase o fazendo cair.
Quando conseguiu que parasse de lhe lamber a cara e o acalmou, reparou que a trela de corrente estava pendurada na oliveira. O Carriço percebendo de imediato a intenção, de rabo a abanar colocou-se em posição para que o dono o prendesse.
Finalmente, quando estavam prontos para a partida, sem qualquer lamento entendeu o motivo da caminhada: algo lhe dissera que o Carriço o esperava naquele local onde no ano passado o havia enterrado. Não quisera partir sem o dono, esperara por ele, pelo seu tempo, e naquela tarde de Outono, um raio de sol estival que pareceu absorver a liquidez das rochas uniu-os como frutos da mesma árvore.

Só os idiotas são verdadeiramente inocentes. Já o dizia Pamuk.

Acordo, e ainda em torpor, com delicada cadência leio no número dois da “Ler e Depois” do passado Janeiro, uma entrevista a João do Nascimento que editou na Portugália o “escrever enquanto todos dormem”, prefaciado por Valter Hugo Mãe que nos chama desde logo a atenção para a perplexidade de não encontrarmos neste livro as maiúsculas da praxe e que, iremos também encontrar uns hífens metidos-entre-palavras onde nunca os viramos antes. Até aqui nada de anormal e nenhuma compulsão na assunção de opinião me ataca e estou até disposto a concordar com esta ordem de pensamento mesmo não sendo a minha. Mas já estranho que (coisa para me dar motivos para rir não fosse o torpor instalado), logo no inicio da entrevista, à pergunta sobre o atrevimento de ignorar as regras da pontuação escrevendo em minúsculas e utilizando o hífen para ligar palavras onde ele não existe, responda o João do Nascimento, que: “…advém da evolução natural e, simultaneamente, trabalhada, de um estilo que ambiciono próprio…”.

Ora, com a devida respeitabilidade e seriedade que o portuguesinho gosta, uma coisa é certa; o João do Nascimento que deve ser pessoa de vários enlevos e que adora o seu universo, a continuar nessa linha de raciocínio nunca irá encontrar o tal estilo próprio que ambiciona, aliás, o Valter Hugo Mãe bem lho podia ter dito já que, em prefácio num outro livro que agora não recordo o titulo e me falta a paciência para procurar, fala da originalidade do ponto e da escrita em minúsculas, que usa, e de ele próprio ter sido também vitima dessa estranheza, pois, assim, escusava o João do Nascimento de incorrer no desagrado de pretender ter o que nunca foi dado para adopção, embora ande por aí nas mãos de bons e maus escritores e, nalguns casos, de forma tão desajustada que mais parece uma espécie de alquimia da montagem ou um quadro de tensão doméstica.

Para um entendimento saudável, embora amargo do que acabo de dizer, e porque nomear valoriza, universaliza e cria um espelho onde outros se podem mirar, importa dizer que, este “estilo”, que adquiriu uma particularidade vagamente nómada que está na génese e no desenvolvimento de algumas discussões e que já passou pelas casas de Al Berto, Herberto Helder, Gabriela Llansol, etc, aparece em 1981 (hélas, a coisa é contrariada pelos factos. (e pela física dos materiais.)), em conjunto com o travessão entre palavras e no fim de frases (que mais tarde se viria a estender), no primeiro livro de poesia da mesma autora do ecléctico e expositivo livro de contos, “a mais loura de lisboa” editado pela Difel (vá, respirar fundo, um, dois, três, expirar devagar…), e, sobre o assunto dizia então em 1984, David Mourão Ferreira depois de se referir à riqueza imaginística e à variedade de ritmos da autora:

…importa igualmente sublinhar como essas virtudes se vêem aqui «servidas» pelo próprio processo de pontuação adoptado pela autora – ­processo que não constitui, de modo algum, como por vezes acontece em outros escritores novos, um simples tique de expressão ou um mero maneirismo gráfico, antes o modo muito adequado de sugerir, na teia criada pela «corrente da consciência» a partir de certos instantes, que o ponto final representa apenas uma pausa provisória e que a minúscula que se lhe segue mais não faz que retomar o fluxo daquela corrente…”.

Ora, perante tal categorizada opinião, restará talvez aos escritores serem eles próprios na sua inteireza e não meros re.fazedores do "inédito" já feito, pois, nada mais fazem que tactear na escuridão.

Nota final para os impolutos avessos à critica e que reduzem quem a faz a um tipo predefinido de indivíduos:

E Jesus disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura.
Quem crer e for baptizado será salvo; mas quem não crer será condenado.
Marcos, 15-16.

A Alá pertencem Oriente e Ocidente.
Alcorão, A Vaca, 19.

Para os que engolem antes de provar


Escreveram-me dois seres indignados; um orangotango e um babuíno, cujas respectivas orientações sexuais não tenho o prazer de conhecer e descarregaram a bílis; primeiro no meu e-mail e depois na caixa de comentários que felizmente está protegida contra ameaças à saúde pública.
No entanto, acredito, que por detrás de supostos estatutos morais, éticos, filosóficos, etc., produzidos pela medula destes caridosos seres despeitados e desnutridos de qualquer materialismo dialéctico, está um respeito sincero (razão da atenção dispensada à humildade de génio e superioridade magnânima do autor deste post) que considero ser necessário alimentar em vez de destruir.
Sei que, vivemos tempos moralmente dissolutos, tempos em que é urgente resgatar uma certa corrente filosófica que dá relevância primordial ao que, em cada sociedade ou civilização, se herdou do passado como hábitos e procedimentos razoáveis, e é nessa conformidade que todos merecem a oportunidade de se retractarem de forma a harmonizar na medida do possível os valores em causa.
Sabemos que há uma fracção da "população que se destingue" por carregar as malas dos outros, mas, estes seres, muito embora de sociologia simples, estão longe de se constituir como uma entidade sociologicamente coerente, são, antes, um grupo profundamente perdido numa fronteira inusitamente clara: como não são grandes máquinas na prudência e cálculo das consequências das suas acções, abocanham competências para que não estão preparados devido à sua herança genética, ou seja, a sua cultura é o reflexo de meia dúzia de idas ao café onde, entre bagaços, adquirem dotes para tudo o que é mesquinho e reles na lógica das velhacas traicõezinhas para abrilhantar o ego, próprias de quem não tem coluna vertebral.

Sei que ainda tinha em mente mais uma palavrinha ou outra para este grupo de seres que coça os testículos enquanto conversa com alguém, mas por agora só me recordo da dos filhos da puta, fica, pois, para outra ocasião.

Entrada posterior: A Alice Macedo Campos, voltou e está AQUI.

O primeiro é com mel de rosmaninho

Chove na minha rua, olho através dos pingos que escorrem na janela donde espreito o dia e hesito na intenção de me vestir e sair. Hoje a indulgência não anda por aqui, talvez por isso, de pensamento vagabundo e uma módica ponta de ironia, mando bugiar o tempo já que está tempo para isso… sem pormenores, sem banalidades, sem precisar fazer sair a fala não se vá esta espojar nas costumeiras expressões indelicadas onde só se atiram as frases.
Assim, de forma irrepreensivelmente irrepreensível, papo um, dois, três noticiários… ouço alguns democratas do champanhe e caviar ideológico, avessos a análises desapaixonadas e despartirizadas, proferirem nas suas brincadeiras opiniáticas tantos e absolutos imperativos categóricos que já não respondem às múltiplas situações dilemáticas que surgem, que me dão vontade de os correr a varapau… que corjazinha… que caquinha esta que nos tenta enfiar o garruço… que rico novo ano que não se abre à análise e avaliação de contextos… veio parecido com a modorra que tomou conta do país em tempo de self-fulfilling prophecies… mudam as moscas mas a dimensão da alma humana continua igual, nada de tolerância no edifício atraente que é livrinho dos pascácios…
Para quando a regeneração?… Para quando uma ética de responsabilidade solidária?…
Que filho-da-puta de tempo este o tempo de se tirar o chapéu aos taralhoucos irreverentes e malcriados e aos eruditos dos bons princípios e gorduras democráticas donos de muita asneira de porte considerável?
Que filho-da-puta de tempo este!?…que vá bugiar mais essa cambada de chupapiças pouco fiáveis! (ui, lá me saiu, mas como diria a minha amiga Maria, pessoa de esmerada educação, que se foda!)
Está tempo para ler os Simples do Junqueiro.

Não existem limites para os nossos sonhos, basta acreditar!

A ti, que por aqui continuas teimosamente a passar, desejo-te um maravilhoso Natal. Um Natal de retemperação.
E, se tiveres de correr por algo, que seja pelo amor e sua eterna força, pela raiz vibrante da paixão que desagua nas palavras que estão dentro de ti, pela alegria de um coração a dançar, pelas pessoas que te gostam de ver rir, pelo doce de um beijo, pela saudade daquele abraço que te forra a memória e escorre qual rio, pela paz de uma paisagem de mil cores no meio do nada, por uma lágrima da lua, o perfume da rosa ou a cor do mundo que se dá, que se revela na sua verdade com um sorriso de esperança.

Para 2009, faço votos para que te consigas livrar daquelas acções de desmedida e mentirosa tendência que ninguém quer, que saibas rir quando te falarem da fereza da competitividade, que não te chegue aquele vendaval que dá pelo nome de crise e fabrica demónios de carência, que passes ao lado dos downsizing de fronte alheada e vaga e tenhas mesa farta e um pote de ouro no recôndito do teu lar, que nunca conheças a sanhuda face do outsourcing ou a dos recibos verdes e, finalmente, que as reduções de custos e a maldade milenta das habilidades sinergéticas, as leve o ermo vento como sombras do passado.

Boas festas e que o cérebro te inche de novas e boas ideias.

Já não existem álamos, nem luas, nem métricas que me valham.

A mão está pesada… e a pena, véu de alma transparente já não me embala, nada surge neste descansar de nada… não escalo montanhas, não atravesso oceanos, tão-pouco enfrento tempestades, e pergunto-me no desalento, no desencanto, na tristeza esparsa sem nenhum motivo de pranto, para onde foram as palavras?…
Que fiz dos infindos tesouros recolhidos e guardados na pele… onde se recolhe o mistério do imaginário quando desaba o silêncio sobre os crepúsculos negros de tristeza que misteriosos me rodeiam e porque quero tanto o que ninguém me pode dar?
Chove e interrogo-me na tarde lívida se a tristeza das gotas que caiem será minha, que sabor será o do grito que expressa sentimentos e teimo em calar, e quantas serão as palavras nuas de diferentes paladares que se debruçam a poemar.
Mas para quê interrogar-me? Não sei que fazer com as palavras que transporto neste tempo de horas certas em tempo que não é certo e onde os ângulos se não encaixam, da pressa para tudo até para não se ter pressa dos dedos entrelaçar no calor necessário de um ombro amigo no qual chorar… resta-me lamuriar por ser tão como os outros, tão singular.
Olho pela janela em busca da luz que se reflecte nos sorrisos, dos passos que dançam tangos de olhos unidos até cegar, da mágica brancura dos sentimentos cristalinos, das sombras esbatidas que se abraçam num poema ou na ternura de um olhar, do dia em que nas minhas mãos sentirei o sentido das tuas como palavras nuas que não poderei calar, da bússola, de um mapa, de um paralelo dobrado num qualquer canto de luar…

A chuva parou, e o céu, devagar, mesmo devagarinho, sem pressas, seguindo o seu caminho, abriu um sorriso único… eis então que a página, incontida se moldou, e subindo às palavras de azul se manchou.

Apanhado com mirabolante facilidade na teia da loucura.

A mulher que rondava os trinta anos gritava para quem a queria ouvir que, aquele ali, apontando um indivíduo dos seus quarenta com ar de redfish baratuxo, era um patife. - Enganou-me, gritava, e enquanto puxava pela mão de uma rasteirinha de olhos arregalados, continuava: - E agora este merdas nada quer dar para a criança, nem sequer o nome. Bandido! Filho-da-puta!…
Os curiosos que se tinham juntado para assistir ao desacato, possuídos daquela facilidade que nos caracteriza em tomar partido sobre qualquer polémica, davam a sua contribuição condenando já o homem, a maioria, dizendo que há gajos que são uns bandidos, querem é dar uma queca mas depois não assumem a responsabilidade, outros, defendendo que a criança não tinha culpa dos erros dos adultos e, era imoral, no mínimo, não ter o nome do pai. Tudo isto dito de forma sintética e desengordurada.

O alvo da confusão estava estupidificado; ora olhava a mulher, ora olhava as pessoas, sabendo estar metido numa grande alhada. Por vezes, nos milimétricos silêncios tentava dizer qualquer coisa, mas logo a mulher teimava em lhe estragar o encanto das palavras berrando-lhe a plenos pulmões que ele era um bandido, que a tinha enganado, que as havia de pagar, que a mãe bem a tinha avisado… Tudo isto numa gritaria tal -como se lhe despejassem em cima calhaus a ferver, que se ouvia de uma ponta a outra da Gare do Oriente.

Não cheguei a saber para quem ficaram os méritos e os deméritos, ou tão-pouco quem arcou com a fúria daquelas gentes, embora, o alvo, fosse mais óbvio do que a boa música ter a ver com o “soar bem”, não assisti ao resto da discussão, não sou grande apreciador, estas apertam-me o peito e causam-me tal ansiedade que me leva directamente à cerveja, por isso fui andando.
Enquanto me afastava, continuei a ouvir os impropérios da mulher que sobressaíam do vozear da multidão que ia engrossando à volta dos desavindos.

No dia seguinte, fazendo o mesmo percurso, reparei ainda de longe que havia outra confusão precisamente no mesmo local. Enquanto me aproximava, reconheci os gritos da mulher que gritava a plenos pulmões os mesmos impropérios da véspera; que ele era isto, que ele era aquilo, que não dava nada à criança… e os curiosos à sua volta, tal como antes, tratavam de tomar partido e dar a sua opinião.

Tudo igual ao que tinha visto no dia anterior com um pormenor que fazia toda a diferença e tornava cândida qualquer tese que tivesse desenvolvido. Incrédulo, avancei para me certificar e constatar sem sombra de dúvida que este era mais forte e mais novo que o outro, até mais alto, este homem, era óbvio, nada tinha a ver com o redfish baratuxo de ontem.

Saí dali a correr, pelo caminho, sorridente, dei uns pontapés na fronteira artificial dos moralismos que ontem se tinham encavalitado, sabia que já me esperava um arroz de lingueirão com jaquinzinhos fritos.

Nota: Conto revisto e republicado porque sim.

Lances diferentes e novos enlaces.

Talvez a vida seja um jogo inconsciente onde pretendemos dominar o sentir.
Talvez por o amor ser mais importante do que os danos infligidos, os descuremos frequentemente.
Talvez sejamos, afinal, apenas peões inquietos em tabuleiros de negros dias e noites brancas de denso sentir.
Talvez, talvez, talvez…
Talvez por isso eu beba a poesia devagar enquanto outros correm apressados sem saber o que está ali… nas pequenas dobras do tempo… no que é importante e também nas coisas sem importância, com seu ritmo simples e quotidiano na estrita conta do tempo sem tempo.

Talvez para os poetas as palavras e os silêncios sejam sinónimos em significância... que afagam na cumplicidade e ferem na dor, não importa… têem sempre o sabor doce da ternura mesmo quando sabem a sal ou se escapam num fio de vento pelas metáforas... quando criam um estuário de novas figuras da linguagem ou transformam as banalidades em pequenas epifanias, quando agarram nas palavras gastas e as vestem com as cores dos sentires e do sonhar.

Talvez, sensatamente, um poema não se repita como não se repete um conto, um saudoso mar, uma fotografia sob a mesma luz natural ou a exacta inclinação dos raios solares, naquela mesma árvore, com aquele número incognoscível de folhas vergadas ao vento…
Cada poema tem o dever de falar, tem o seu próprio ritmo que nos envolve e atravessa, que ecoa um outro tempo, um outro espaço, com uma cor que é afinal um espaço sem cor à espera de ser colorido por um ouvido atento…

E,
porque só os poetas podem salvar as palavras, AQUI, um sentir denso… uma pétala de rosa azul a chorar…

O Maneirinho


Dircelina, lembrava-se bem de quando chegou com a maleta de mão trazendo por companhia a sua cor preta, a pouca escolaridade e o estigma de um país em guerra. Vinha para trabalhar neste que por lá era visto como a árvore das patacas e, por via disso, a esperança fizera-lhe companhia, aconchegara e soprara-lhe docemente no peito dizendo-lhe em surdina: vais conseguir. Para trás, para lá dos ventos vindos dos mares, ficava a família: mãe, duas filhas pequenas e quatro irmãos. Dois deles estropiados. Era tudo o que a guerra não tinha levado e nisso não queria pensar. Aquela era a altura das grandes tarefas, o momento que ambicionou e não tinha receio de confrontar. Para isso contava com outra grande aliada: a vontade inabalável de vencer.
Aquele emprego que um antigo amigo do seu pai lhe arranjara não era o que pensava, esteve para o recusar, não o fez pela miserável fome que já há dias a acompanhava, mas hoje, dez anos passados, sabia que tinha ganho a grande prova. A tristeza do primeiro dia em que obrigada se deitou com um cliente e depois com todos os outros que se seguiram, eram passado assim como as lágrimas que abriram sulcos nas suas faces de ébano.
O desejo pelo seu corpo esguio e musculado do trabalho na sanzala, tinha-lhe garantido uma posição privilegiada entre as escravas do Maneirinho e, desde muito cedo, traçara o seu plano.
A vinda da família acontecera já depois de ter conseguido casar com o Maneirinho, a seguir, foi um passo até o convencer a investir o dinheiro ganho com a escravatura num negócio que ela e a mãe passaram a controlar, por fim, ele começou a gostar daquele chá que, com receita da sua avó, a mãe lhe ensinou a fazer e que provocava no Maneirinho o estado esfuziante de alucinada embriaguez.
Foi nesse estado que o convenceu ser ele capaz com a força do querer, parar o rápido Lisboa-Sintra.
Postada no apeadeiro ainda lhe notou incerteza no olhar, um despertar a destempo quando, no meio da linha, viu o comboio aproximar-se.
Por fim, num murmúrio quase inaudível, quase indizível, melodiosamente disse: faz as tuas contas com o diabo.

Nota: Conto revisto e republicado porque sim.

Há mais mundo!… o arco-íris reflecte-se em sete cores!…

Não chove lá fora, mas o dia é triste como se houvera chuva e as crianças partissem para longe da infância ingénua, para longe de toda a graça entressonhada, sem um pesar, uma dor sequer.
De sentido alucinado desprezo o mundo que em seguida abraço, removo-lhe as crostas duras da verdade rotineira, subverto a realidade comum neste jogo de aparências e, consumido de alterabilidade, não respondo à voz interior que balbucia: quem és tu no outro lado do espelho deste jogo ontológico?

A vida não passa de uma confusão cósmica de conjugações vãs e difíceis, onde só Viver! e Amar! têem significado depois de ceifadas as expectativas que nascem das palavras.

Corre um rio de interrogações enquanto olho a estrada esfíngica das horas mortas e, na confusão do caos que trespassa os meus olhos cerrados e me freme o peito, debato-me com um débil grito, um murmúrio: há mais mundo!… o arco-íris reflecte-se em sete cores!…

A Orgia Estéril da Mentira… (*)

Descalcei-me e enterrei os pés na areia húmida da chuva que caíra pela manhã. A sensação, enquanto olhava o mar cinzento e chão, dos grãos de areia entre os dedos era relaxante … era o momento de preia-mar, onde pequenas ondas num bailado repetitivo lambiam a areia e bandos de gaivotas esperavam pela noite. Muito cedo, pensei… falta uma boa hora para o crepúsculo as abraçar… o céu, carregado de nuvens, denunciava que a noite não seria serena nem de luar.
Embriagado indolentemente pelo cheiro da maresia e o som cadenciado da rebentação, via-a ao longe e fixei-a enquanto caminhava na beira do mar. À medida que se aproximava admirei-lhe a forma esguia, o cabelo negro solto ao vento e o vestido leve. Vinha descalça, com uma toalha azul pendendo da mão. Nisto, e sem que algo o fizesse prever, virou-se repentinamente e caminhou na minha direcção.
Em choque de prazer, olhei-a com inconsciente e estéril pensamento. Que quereria aquela insólita e linda sereia de mim?… Parou quando chegou perto e depois de um instante cumprimentou: - Olá, boa tarde. Respondi-lhe dizendo que a tarde não fora grande coisa até àquele momento, mas tudo indicava que podia melhorar. Ela sorriu mas nada disse, estendeu simplesmente a toalha uns três passos à minha frente e sentou-se admirando o mar. Aproximei-me e sentei-me a seu lado, guardando uma distância educada mas não conservadora, já que, tinha sido ela que convidativamente se aproximara.
Puxei um cigarro sem parcimónia com a secreta esperança que um novelo de fumo amenizasse a conversa e, pensando que no linguajar é que está o ganho, acendi-o. O clic-clac clássico do zipo de estimação, pareceu interessá-la. Perguntei-lhe se queria um cigarro… aquiesceu estendendo a mão. Passei-lhe o maço donde tirou um voltando a estendê-la pelo zipo que me apressei a colocar na alva e frágil mão que senti quente e macia. Acariciou-o como uma apreciadora enquanto lhe admirava a finura de dedos. Acendeu-o, protegendo a chama do pouco vento com uma delicada mão em concha e após uma forte puxada, perguntou-me o que fazia ali… respondi-lhe que descansava de um dia demasiado complicado, e, enquanto o fazia, embalado na orgia do prazer manobrava de forma a desenvencilhar-me da aliança que teimava em não sair do anelar. Nisto, num movimento rápido e inesperado, virou-se, e mostrando uns lindos olhos de azul inocente, disse que ia ali todos os dias àquela hora num ritual que se habituara a cumprir havia anos.
Eu sabia que ela me tinha visto na tentativa infrutífera de tirar a aliança e, ao ser apanhado, tinha enrubescido desmesuradamente como sempre acontecia quando era apanhado em falta no esvoaçar da minha capa de herói. Ela não desviara os olhos e eu não era capaz de a encarar. Refugiava-me na linha agora negra do horizonte e esperava que a brisa deste fim-de-tarde, num sopro arrefecedor, me devolvesse a cor original.
O tempo escorria e eu entregue à minudência matemática de contagem das ondas tentava, num pretendo impoluto, afastar qualquer culpa; eu era homem e ela uma mulher belíssima, a tentação tinha prevalecido, objectiva e subjectiva como todas as máscaras da alma humana.
O silêncio pesado durava há muito quando ela inesperadamente me perguntou: - Que faz aqui a esta hora, não é casado? O rubor voltou ainda mais desconfortável qual punidor da velhacaria anterior. - Sou e tenho dois filhos, acrescentei como que a penitenciar-me da nabice anterior já que o propósito estava frustrado. - Ama a sua família, voltou a perguntar. Após um instante respondi-lhe que sim, não valia a pena mentir, só faria papel de estúpido.
Estendeu então a mão para me cumprimentar, dizendo: - Chamo-me Marta, sou cega de nascença.

(*) Conto revisto e republicado a propósito do post anterior e porque me apeteceu.

A verdade em defesa da mentira, num “post”, aparentemente, longuíssimo

Na vida é assim; cônscios, reflectimos sobre o real ou imaginário, tentamos iluminar o caminho de outros com vetustez e austeridade automatizada e temos sempre no camarote donde assistimos o diagnóstico das ressacas, por vezes, com laçarote até, quando, certeiro, seria sacarmos de soluções, quais resistentes entrincheirados no optimismo, para combater o depósito de valores basilares no museu da evolução humana. Mas é a educação de TV, da balbúrdia dos artefactos e até, caso em apreciação, do suborno para que a verdade, a mais dura e inconveniente, seja dita mesmo que resmungue ou grite à felicidade e destroce a própria família.
Diz o RAP, na “Visão” 811: “o que o Momento da Verdade vem demonstrar, e de forma fulgurante, é que, mesmo a troco de dinheiro, dizer a verdade nunca é boa ideia.”. Ora, se substituirmos a compreensível hipérbole do adverbio de negação “nunca”, por um conservador e ponderado “nem sempre”, concluiremos estar este carregado de razão e, com alguma liberdade poética, podemos sublinhar “que a verdade é um bem precioso, demasiadamente precioso para se partilhar com toda a gente”.
Entrando no domínio da polémica propriamente dita, o assunto dá vontade de falar porque é anedótico discutir a anedota que é este “reality show”, os jornalistas destacam-no e exploram-no, é tema de conversa nos cafés e em blogues e o que não falta é gente a contemporizar com esta mediocridade (sem nuances, porque não vale a pena aguçar o engenho). Tudo isto é triste, incluindo este “post” que aponta o dedinho qual policia dos valores morais dos outros, mas nada inocente se atentarmos na exploração básica a que se prestam estes emoticons tontos ávidos de dinheiro (corruptos?), que regridem a idade mental e engrossam a fileira das falsas virtudes colectivas.
Ou seja, correndo o risco de desenterrar alguns pruridos e passar a ser um traste em quem não se deve confiar: a mentira piedosa, bondosa, elegante, educada (como queiram), tem mais virtude que a verdade besta, imbecil e anti-social, a verdade e a mentira são complementares num aparato linguistico que, tenha uma existência que vá além daquilo que uma pessoa diz a outra numa dada ocasião.

Isto pedia mais alguns argumentos que desmontassem alguma possibilidade de polémica, mas seria ridículo dispensar mais meia dúzia de linhas a este assunto.

Canalha Miúda (breve episódio das férias)

A cena decorre no Sul do País, numa esplanada como já há poucas (perdoem-me o saudosismo), completamente ensombrada por grandes arvores.
Os personagens são o empregado e dois familiares meus e, a protagonista, é uma rasteirinha doce de quatro anos. O ritmo é o de férias, suave, como deve.

O empregado, solícito, espera a finalização do pedido.

A mãe, virando-se para a rasteirinha doce de quatro anos, pergunta:
- Queres um “Ice Tea” de manga?
- Sim!
Olhando o empregado, a mãe termina o pedido:
- É também um “Ice Tea” de manga!
Nisto, a rasteirinha criatura de quatro anos, roda a carola loira, encara o empregado e subvertendo os princípios hierárquicos, qual “franco-atirador” (comas hesitantes), complementa:
- Comprida!

Após uma fracção de tempo necessário à assimilação do singular complemento, o solícito empregado, com manifesto senso de humor, perde a compostura e resgata lá dos confins uma gargalhada que os presentes acompanham.
Claro está, como “bloguiano”, pensei: Ah, tão giro!… este tema dava um “post”. Enfim…
Deixo-vos com um aforismo de Pamuk: “Só os idiotas são verdadeiramente inocentes”.

A Net, esse alter que assoma, distorcendo e invertendo a realidade para a tornar mais verdadeira.


Consigo visualizar esse “mentir”, principalmente a verdade desse mentir… o outro lado do espelho, dos simbolismos... onde se mente para melhor atirar a verdade suja ou o mistério do belo... onde num gesto que não é isolado se atiram para o écran palavras daquilo que sentimos na altura... pegada sobre pegada guiamo-nos pela luz das estrelas que nas folhas ficaram... um jogo ontológico onde se mente, na medida em que se subverte a realidade comum com a arte mágica de remover dos rostos as crostas duras da verdade rotineira, onde as palavras queimam por dentro e são a senha que dá acesso ao mundo dos vivos... o cosmos inteiro confundido numa mistura explosiva... um poema em que residem sentimentos e sentires... sim, a poesia serve para reencantar o mundo, serve para olharmos para nós e pensar; onde me enganei no caminho?... quem sou eu, afinal?... interrogações sempre sem resposta mesmo do outro lado do espelho, porque a verdade está tão subornada pela linguagem comum que a mentira se torna uma distinção poética e de toda a arte.

O poder da mentira é o de dizer a verdade!!!!!

Sacudamos os dentes que procuram rasgar-nos as carnes e dilacerar-nos o ânimo... deixa-me ir contigo até ao fim mais agudo da tua vida, pois só a mentira permite dizer a verdade para lá das verdades comuns e mentir acaba sendo uma necessidade absoluta neste jogo de aparências quotidiano... do apelo da selva que perdura e onde os predadores renascem mordendo trigo novo... onde as palavras são jogos de espelhos em que o lado direito parece ser o lado esquerdo, mas é dessa forma que expressamos as nossas emoções e sentimos tanta coisa quando escrevemos; pensamos em alguém que amamos... que não gostamos... numa paisagem... num momento único vivido... e nem cantos nem lágrimas poderão parar o destino marcado a cada um de nós e a todos nós, quando nos foge o tempo no espinho duma rosa branca.
Na verdade, todos os momentos são únicos, pensamos nesse instante sentado a sul dos astros... e quando voltamos a pensar já não conseguimos pensar da mesma forma, aquele instante ficou cristalizado, é apenas daquele momento e de mais nenhum... da fera acorrentada na praia ou do deus indulgente que inventou o pecado original.

Será solitário o oficio da escrita, requererá silêncio e um frio tremendo na alma para que não trema a mão?

Leio Dostoievski, no livro "Noites Brancas", e sublinho de passagem o sublime simples como recado a alguém: "Nunca esquecerei a história duma linda e pequena casa cor-de-rosa claro. Era uma casinha de pedra, olhava-me com um ar tão afável e mirava tão orgulhosamente as suas frias vizinhas, que o meu coração se alegrava sempre que passava diante dela."

E, relendo “As grades” de Sophia, sinto que a poesia existe, tanto na forma como se sente o que se lê, como vendo o rosto belo da mulher de primavera que Boticelli cristalizou na sua plenitude e abstraio-me do verão, subverto-o até o conseguir pressentir, e escrevo na memória um conto sobre o contador de histórias que declama a rosa descosida das sombras das suas pobres vestes, e não me surpreendo por o silêncio se demorar nas minhas mãos quando concordo com Caeiro:

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando a janela abre.

Reflexos de luz

Num tempo de tormentas que consomem, de ilusões que se esvaem sem um lamento ou lágrima embriagada da tristeza do fundo dos dias, fizeste-me sorrir. E, no reencantar de sentimentos e sentires, curvados no brilho das estrelas dos teus olhos, o sentimento cresceu e quis ser pássaro das rendas dos silêncios, e no som das brumas, nas imagens de veludo, nas palavras de crepúsculos doirados… poder voar!
Então, tudo renasceu… simples, calmo e infinitamente belo onde antes era desilusão.
E num céu azul de sonho, onde escrevo as vozes que ouço dentro de mim e me afasto daquilo que sou, torno-me vento, arco-íris, fonte de paixão ao encontro dos braços que suavemente abres… e danço no som do teu coração.

Palavras jogadas à noite...

Levantamo-nos numa noite em que a insónia é maior que o cansaço e, no silêncio breve, utilizamos as palavras como se tivessem crescido connosco; fiéis, discretas, superlativas… escrevemos porque existe uma abstracção mental onde tudo se encaixa, ligando o passado ao futuro onde a ponte é o presente. Admiramos os que procurando resultados ou respostas com olhos de ver, encontram interrogações e o outro lado da humanidade que é ela mesma, com as nossas imperfeições onde na sombra que se esconde do sol se desenvolvem as máscaras…

Nada disto faz de mim um homem melhor… nem menos que um pigmeu nem mais do que um gigante… são apenas expressões deliberadas, ecos admiráveis convocados para melhor disfarçar os silêncios com que cuido das minhas crostas.
Reforço finalmente uma ideia: entre o mais e o menos infinito o zero também existe, e insisto na metáfora que roubei na minha infância: há um sonho com sabor a sol dentro de mim.

Maré Alta




Às mil e tantas horas d’uma manhã raiada,
Boca na tua, pele de espuma em rito sagrado,
Escorro em ti, como em fêmea desabitada
E a paciência de um espraiar cadenciado.

E no silêncio breve de um tempo adormecido,
Sensível e vibrátil como as mãos de uma guitarra,
Invado-te em plural de nós, venial e decidido.

E Tu, sôfrega mas imperturbável,
Liberta das amarras da razão,
Espaçadamente me bebes
Rumando a um mar de emoção.

E segredas-me; vem comigo, amor. Vem!
Como um só partiremos nesta viagem.
Para além do poema e do tempo que nos sustém.


Se Sócrates pode dizer que o Louçã não tem currículo nem idade, eu posso repor resíduos.

Aqui a atrasado no lançamento do livro de um amigo, muito se disse e muitas interpretações se ouviram a quem se pronunciou. No final, o autor, em roda de amigos confidenciava: não supunha ter escrito o livro de que falaram.
Não o fez em tom de zombaria, antes o contrário, confirmando que uma obra não se esgota quando o seu autor a termina.
Reflectindo sobre as palavras que uma amiga em tempos escreveu, concluí que uma obra, qualquer obra, nunca está completa; passa a ter outras histórias que são as interpretações que cada um lhe faz, e isto justifica-se essencialmente porque o ponto de partida não é o mesmo da chegada. Ou seja: um artista comunica com os outros por uma linguagem diferente, seja a do discurso escrito, das tintas, da pedra... e fá-lo por sentir a urgência de “dizer” algo que de outra forma não é capaz, por sentir a insuficiência das palavras procura imagens ou texturas ou sons... criada a obra, ela passa a ter vida própria e uma lógica própria, ultrapassa o criador retendo deste a assinatura e o desejo de algo. Tentar dizer algo “sobre”, seria quase o mesmo que calar um filho, considerá-lo mudo e incapaz de falar de si e do mundo.
A obra, qualquer obra, tem vida própria, ganha essa vida ainda antes de acabada, quando “diz” como quer ser... um quadro pede cores e traços, um texto foge ao traçado inicial quando as palavras se impõem como uma força que escapa ao controle. O raciocínio a que o autor pretende obedecer escapa-lhe desde logo, nunca lhe tomou as rédeas, antes foi tomado por elas e é preciso ouvir a obra falar, escutar o que tem para dizer.
O autor a falar da sua obra... a obra a falar do seu autor... um diálogo de surdos porque o cruzamento das vozes é enorme e, no entanto, fazemos silêncio para ouvir e tentar perceber.
Claro que nem sempre isto acontece, e então o “leitor” descobre-se no autor e algumas vezes o inverso é também verdadeiro, porque a arte tem vida própria e abre mundos não sonhados, para quem a cria e para quem a recebe.

Acontecimento cultural do ano


Na ocasião, será igualmente apresentada, por Jorge Telles de Menezes, a obra "A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido", de Paulo Borges (colecção NOVA ÁGUIA)

Lista completa de lançamentos:
http://www.novaaguia.blogspot.com/

FAÇA PARTE DESTE PROJECTO. ASSINE A NOVA ÁGUIA:
http://www.zefiro.pt/novaaguia


Como é sabido, A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Carneiro, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.
A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu "espírito", adaptado aos nossos tempos, ao século XXI, como se pode ler no nosso Manifesto.
A NOVA ÁGUIA está vinculada a três entidades : Associação Marânus/ Teixeira de Pascoes (sede Norte), Associação Agostinho da Silva (sede Sul) e MIL : Movimento Internacional Lusófono. Inspirando-se na visão de Portugal e do Mundo de Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, a NOVA ÁGUIA assume-se como um órgão plural.

Tal como n' A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas. O tema do primeiro número é "a ideia de Pátria: sua actualidade".
Orgulhamo-nos de ter conseguido o contributo de gente tão ilustre como Agustina Bessa Luís, António Cândido Franco, António Telmo, Ariano Suassuna, Fernando Echevarría, Joaquim Domingues, Manuel Ferreira Patrício, Mário Cláudio, Miguel Real e Pinharanda Gomes, a par de muitos outros.
Para além disso, neste primeiro número poderá ainda encontrar uma série de outros textos, sobre outras temáticas:

NOVA ÁGUIA : ÍNDICE DO PRIMEIRO NÚMERO

- EDITORIAL/ MANIFESTO NOVA ÁGUIA/ ÓRGÃOS
- Manuel Ferreira Patrício, APROXIMAÇÃO À IDEIA DE PÁTRIA
- Pedro Teixeira da Motta, DO RENASCIMENTO DA NOVA ÁGUIA

SOBRE A IDEIA DE PÁTRIA: TEXTOS

Mário Cláudio, DA PÁTRIA
J. Pinharanda Gomes, ANAMNESE DA IDEIA DE PÁTRIA
Pedro Brum, PÁTRIA E LIBERDADE
Paulo Feitais, PENSAR A PÁTRIA HOJE: QUE SENTIDO?
Paulo Borges, DA IDEIA DE PÁTRIA AO SENTIDO DE PORTUGAL E DA COMUNIDADE LUSÓFONA
Maria João Frade, SERMOS TUDO OU TODO?
Manuel Matos, A IDEIA DE PÁTRIA ENQUANTO REPRESENTAÇÃO IDENTITÁRIA
José Leitão, UM ARGUMENTO PELA IDEIA DE PÁTRIA
Joaquim Domingues, DIÁLOGO ACERCA DA PÁTRIA
Isabel Santiago, A LÍNGUA COMO PÁTRIA
Fátima Valverde, SONHO, SAGRADO E SILÊNCIO: TRILOGIA PARA UMA NOVA PÁTRIA
António José de Brito: A PÁTRIA: AINDA É POSSÍVEL…
Ana Margarida Esteves, FADO DOS FILHOS DA «DEMOCRACIA DE SUCESSO»?
Sérgio Sousa-Rodrigues, REPATRIAR A PÁTRIA
Samuel Dimas, PÁTRIA E MÁTRIA
Rui Martins, PÁTRIA: ONTEM, HOJE…E AMANHÃ
Rita Cardoso, POX VOP
Renato Epifânio, NOVE NOTAS & UM NOVO PARADIGMA PARA PORTUGAL
Paulo Ferreira da Cunha, REFLEXÕES SOBRE A DECADÊNCIA
Manuel Abranches de Soveral, A PERSPECTIVA DA ANDORINHA
Luís G. Soto, UM PATRIOTISMO PLURAL, LIMITADO MAS COMPROMETIDO
Luís Santos, A LUSITANIDADE NÃO IMPEDE A LUSOFONIA
Lourdes Cidraes, QUE LUGAR PARA OS NOSSOS HERÓIS?
José Eduardo Franco, O MITO DA EUROPA EM PORTUGAL
João Beato, LUSO, LUSÍADA, PORTUGUÊS
Dalila Pereira da Costa, UNIÃO E FUGA À PÁTRIA

SOBRE A IDEIA DE PÁTRIA: POEMAS

De A. Cândido Franco, Alexandre Vargas, Celeste Natário, Dirk Hennrich, Donis de Frol Guilhade, Emmanuel Gatete, Fernando Grade, , Isabel Mendes Ferreira, Francisco Soares, José Florido, Luís Filipe Cristóvão e Manuel da Silva Ramos, Renato Epifânio, Paulo Borges e Augusto Emilio Zaluar (com nota de Rainer Daehnhardt)

OUTROS TEXTOS

Ariano Suassuna, SOBRE AGOSTINHO DA SILVA
Romana Valente Pinho, ANTÓNIO QUADROS: PÁTRIA REAL E PÁTRIA IMAGINÁRIA
Miguel Real, FRANCISCO DA CUNHA LEÃO: PORTUGAL COMO HARMONIZADOR DE OPOSTOS
Renato Epifânio, MIGUEL REAL: UMA OBRA EM TRÊS LIVROS
Paulo Borges, PORTUGAL: MEDO DE EXISTIR OU TRANS-EXISTÊNCIA?

OUTROS VOOS/ OUTRAS VOZES

F. M. Palma-Dias, VIAGEM A TRACEJADO…
Dirk Hennrich, PAISAGEM E PÁTRIA
Doug Tarnopol, ESTE PAÍS [E.U.A] É UMA PÁTRIA?
Sinem Adar, ENCONTRARMO-NOS NO "OUTRO": MEMÓRIA E HISTÓRIA.
Francine Charron, A LUSOFONIA: OBJECTIVOS NOBRES E DESAFIOS DE GRANDE ENVERGADURA

OUTROS POEMAS

De Fernando Echevarría, Renato Epifânio, Paulo Borges, Paulo Brito e Abreu, João Carlos Raposo Nunes, Duarte Drumond Braga, Maurícia Teles da Silva, Esteva de Alba, , Amon Pinho Davi e Vicente Franz Cecim

DA ARCA

António Telmo, À TARDE E A BOAS HORAS

RUBRICAS

COISAS E LOISAS, de Pinharanda Gomes
O ESPÍRITO DOS LUGARES, de Manuel J. Gandra
AS IDEIAS PORTUGUESAS DE GEORGE TILL, de Jorge Telles de Menezes

VOOS TEMÁTICOS

LITERATURA ORAL E TRADICIONAL, de Ana Paula Guimarães
ARTES PLÁSTICAS, de Cristina Pratas Cruzeiro
MÚSICA, de Nuno Côrte-Real
CIÊNCIA, de Rui Martins

GOLPE D'ASA

Agustina Bessa-Luís, O FANTASMA QUE ANDA NO MEU JARDIM

PRÉ-PUBLICAÇÃO

António Telmo, A VERDADE DO AMOR
Paulo Borges, A CADA INSTANTE ESTAMOS A TEMPO DE NUNCA HAVER NASCIDO

DIRECÇÃO: Paulo Borges, Celeste Natário e Renato Epifânio
EDITOR: Alexandre Gabriel/ Zéfiro



É a justiça, estúpido! (ou o estado a que chegou)

A papelaria do meu bairro, onde abasteço o vicio; de fumo e jornais, foi assaltada. Não a papelaria, mas a caixa do multibanco que dá para a rua. Perdão! Também não foi a caixa de multibanco que dá para a rua, mas o segurança que procedia à reposição das faltas, na caixa do multibanco que dá para a rua.

Tudo indica, que esperaram a carrinha de valores chegar e o segurança entrar na papelaria para actuar. Fizeram-no com rapidez e argumentário suficiente. Quatro homens, encarapuçados, surgiram da rua traseira e forçando a porta da papelaria (tinha sido fechada – julgo serem normas de segurança), roubaram todo o dinheiro destinado à recarga da caixa. Conta um vizinho, com pungente afectividade, que o Sr. Manel dos frangos, correndo o risco de um cardiovascular, ainda largou a arte no intuito de socorrer a vizinha de comércio fronteiro, mas alguém avisado lhe gritou que parasse, informando que os meliantes estavam armados. Perante informação de tal monta e privados dos legítimos direitos de inscreverem qualquer acto contra a actividade ilícita que testemunhavam, ninguém mais ousou qualquer atitude para além da normal e cuidada espionagem entre portas.

Soubemos poucos dias depois, que o Grupo de Operações Especiais da Policia de Segurança Pública, fazendo tábua rasa da nova Reforma Penal, que proíbe a medida de coacção preventiva a criminosos puníveis com penas inferiores a cinco anos, tinha interferido com o livre exercício de actividade daqueles pacatos cidadãos. Descobriu-os, e no decorrer da acção capturou três, tendo o quarto, encontrado outro caminho ao despenhar-se de um andaime sem as necessárias asas.
Sejamos directos: um elemento, o Osvaldo, que também responde pelo nome de ‘Patusca’ e tem a digna profissão de barbeiro, é gente com historial de assaltos de carrinhas de valores à mão armada (sete, ao que consta) com outro gang que baleou um policia, em Novembro passado, quando atacaram o Finibanco de Moscavide.

Foram apresentados quinta feira da semana passada ao Tribunal de Sintra e já estão cá fora.
Chegado aqui, um forte pulsar tentava-me a falar do ministro da justiça e da sua reforma penal. Mas não, vamos lá sem bússola nem catavento que já se levanta a neblina.

Não consta se o juiz lhes terá dado algum coçóide dialéctico ou beliscões nos fundilhos, mas consta, que a confirmação de serem gente de trabalho, com emprego e por isso capacidade produtiva, bastou para serem elevados a cidadãos integrados na sociedade e mandados em paz -di-lo a vizinhança e confirma-o a edição on-line do Correio da Manhã de dia 14.

Dito isto, espero que os maquiavélicos agentes da PSP, que procederam às detenções com inequívoca e irrefutável falta de formação profissional, não venham a ser acusados de discriminação xenófoba ou racista, para com cidadãos que caíram, por mera casualidade, no isco apetecível de uma caixa multibanco. Também, não caia o leitor na tentação, de ver neste post um manifesto convite à criminalidade; o juiz, ao considerar aqueles cidadãos integrados na sociedade, pode muito bem, estar a referir-se àquela outra parte de que todos ouvimos falar e com a qual não temos intimidade.