Será solitário o oficio da escrita, requererá silêncio e um frio tremendo na alma para que não trema a mão?

Leio Dostoievski, no livro "Noites Brancas", e sublinho de passagem o sublime simples como recado a alguém: "Nunca esquecerei a história duma linda e pequena casa cor-de-rosa claro. Era uma casinha de pedra, olhava-me com um ar tão afável e mirava tão orgulhosamente as suas frias vizinhas, que o meu coração se alegrava sempre que passava diante dela."

E, relendo “As grades” de Sophia, sinto que a poesia existe, tanto na forma como se sente o que se lê, como vendo o rosto belo da mulher de primavera que Boticelli cristalizou na sua plenitude e abstraio-me do verão, subverto-o até o conseguir pressentir, e escrevo na memória um conto sobre o contador de histórias que declama a rosa descosida das sombras das suas pobres vestes, e não me surpreendo por o silêncio se demorar nas minhas mãos quando concordo com Caeiro:

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando a janela abre.

40 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

e abrir a janela é vestir.se do vento. e chegar ao lugar mais longe onde tudo o que é passa a ser diferente.

na distância plena e cheia de cor de Boticelli. afinal um arco-íris que sendo raro se toca e se desfaz na boca do possível.

há nas janelas entreabertas uma visão: a de uma casa branca onde os deuses são reais e carregam aos ombros os dias felizes.

a cada um a sua metade do dia.

aqui um dia inteiro para semear o futuro.

____________________

post a meias com a filosofia e um oráculo.
cálice.
___________________
que se lê para lá da melancolia.

___________________.

um beijo. enorme. a Espreitar à janela.

PiresF disse...

Sim, Y, “abrir a janela é vestir.se do vento” ou de veludos a ondear “e chegar ao lugar mais longe onde tudo o que é passa a ser diferente” é ser encantamento, lança e benção de um afago, Outono de crepúsculos doirados, de púrpuras, damascos e brocados!

Enorme abraço.

Anónimo disse...

voltei.
para dizer que:




em si a metáfora ganha a substância da ternura.




.


do veludo e do belo.




y.

PiresF disse...

Obviamente que só podemos escrever com palavras, mas elas significam tanta coisa entre o sentir estrutural e o “des-sentir” da decomposição das estrofes, estilos, sei lá. Sabes, acredito na visão extraordinária de abrir a janela e em jubilo ver as palavras a brotar, a criar raízes numa primavera que não mais parará de florescer.
Percebes?

Anónimo disse...

percebo. como não?


assisto a um discurso claro.

claríssimo.

________________.

Bill disse...

Escrever, lavar ao alma de verbo...Semear letras e florir versos.

Vou usar essas palavras do Caeiro na semana filosófica "Filosofia e Literatura" em setembro (=

Abraço amigo.

[s]s

Lyra disse...

Entendi-te perfeitamente e sabes porquê? Porque tu me entendes perfeitamente a mim! (risos)

Passo por aqui para te ler e reler, o que sabe sempre muito bem!

Aproveito para te desejar uma execelente semana.

Beijinhos e até breve.

;O)

biazinha disse...

Sim, escrever é um ato solitário já que nossa alma existe sozinha.Também concordo com Caieiro.
Saudades, tio!
Beijos.

jorge vicente disse...

com a filosofia não há janelas

apenas paredes

um abraço
jorge vicente

Bill disse...

"O escritor torce a linguagem, fá-la vibrar, abraça-a, fende-a, para arrancar o percepto das percepções, o afecto das afecções, a sensação da opinião – visando, esperamos, esse povo que ainda não existe."
{Gilles Deleuze}

Ainda no corre corre, li na prova de hoje e anotei (=
Me lembrei do post hhehe

Abraço grande amigo.

[s]s

Lord of Erewhon disse...

Existe - e é a mais solitária e excruciante provação a que se pode entregar uma alma. Paradoxalmente os seus frutos são a maior dádiva.

Abraço, Pires.

alice disse...

"há cada um de nós, como uma cave" é uma existência dentro da própria existência, dado os outros virem até nós e nós até aos outros :) um pensamento muito humano, Pires. um beijinho.

isabel mendes ferreira disse...

e pronto.


afinal a janela abriu-se.

por aqui o vento.


ou vendaval?


beijo.

isabel mendes ferreira disse...

e pronto.


afinal a janela abriu-se.

por aqui o vento.


ou vendaval?


beijo.

PiresF disse...

É só um vento reles, Y. Não passa de um sopro de bode infra-besta e dislexico que resolveu vir aqui marrar.
No entanto e como não é só aqui -o Miguel e o K, também estão a ser alvos de ataques covardes de emoticons tontos, presumo que tenha a ver com a NA.

Beijo, Y.

Anónimo disse...

ah....

ventos "agrestinos" então...:)


.

nada que não seja passageiro...presumo. e inconsequente.


beijo!



y.

Miguel Barroso disse...

Que honra sermos escolhidos por estas cáfilas sem nome!

PiresF disse...

Temos de "baptizar" a tríade.

Abraço, Miguel!

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Simplesmente maravilhoso. Sabe que sempre gostei mais de Álvaro de Campos, mas com o passar dos anos gosto mais do Caieiro. Parabéns, Pirex, vc fez um belo post.
Fiz um post sobre Cidadão Kane, dedicado ao nosso querido vampiro, o Ravnos, e há mais coisas lá de que vc vai gostar, como retratos feitos a mão. Apareça:
wwwrenatacordeiro.blogspot.com/
não há ponto depois de www
Estou voltando de um cirurgia de câncer no útero, preciso me reerguer.
Um beijo,
Renata Maria Parriera Cordeiro

isabel mendes ferreira disse...

e


"todo o mundo lá fora".


e


bom dia....

e


E.


______________

biazinha disse...

O gatinho comeu os dedos do tio Pires...ai que gatinho malvado...devolve os dedos do Tio porque eu tô com saudades dele. LOLLL!!!!!

Beijos, tio.

O Puma disse...

A selva tem duas margens

e uma ponte

onde nem sempre passa

um rio

Lyra disse...

Olá,

Chegou a atura de eu tirar umas férias :O)))

Entretanto deixei, no meu blog, um “presente” para todos os meus amigos. Espero que gostem!

Tudo de bom para ti.

Beijinhos e até breve.

;O)

isabel mendes ferreira disse...

e BIA tem razão...


:)



beijo.

Mié disse...

Eu não escrevo

mas penso que sim, que a escrita ou "a arte" ou tudo o que necessita de criatividade é um acto solitário.

O Belo!!!

Não basta não se ser cego...

ver o Belo, vê-se com os olhos do coração, da alma. Esses sim, procuram ver o que está para "além" da janela aberta

"Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando a janela abre."

Gostei muito desta viagem...:)

deixo-te um beijo

isabel victor disse...

" Com filosofia não há árvores: há ideias apenas "


as ideias férteis ...

são seiva !


claridade



de um abraço
cumplice




iv*

c Valente disse...

Saudações amigas

encena_dor disse...

Convido-o a conhecer o meu blog.
Gostei do seu texto.

Anónimo disse...

abro a janela mas só para dizer:


uma cesta.






y.

Vanda disse...

Tão solitário e profundo, como o descontruir de uma casa. cor de rosa. claro. de janelas entreabertas.

Outros ventos virão.


Belissimo este post!


Um beijo, bom fim de semana.

PiresF disse...

Para memória futura:
Apaguei 15 comentários nesta caixa, 9 de uma imbecil que decidiu vir para aqui marrar e 6 meus em resposta.
Foi a primeira vez que tal aconteceu e, certamente, não será a última.
Decidi, democraticamente, que os imbecis não têem o direito de conspurcar este espaço.

Anónimo disse...

sorriso.


é assim mesmo. viva a democracia.:)


beijos.




y.

Mié disse...

_e

levei-te o caeiro, prontus...

beijo

bom fim de semana

Alê Quites disse...

Salve Caeiro!
Doces abraços

LM,paris disse...

certo, o Caeiro disse-o, o Pessoa escreveu-o de pé contra uma parede os versos dele, do outro.
vivia num quarto sem janelas,
nao precisava de empurrar o vento, consumia-o.
merci, sempre pelas suas mensagens e aqui, por estas escritas que leio com intensa emoçao.
beijos e vou deixar entrar as aves, pela janela, sem querer...
LM

Miosotis disse...

... sem dúvida que os dois, Dostoievski e Sophia, 'pensadores/filósfos'... muito discerniram antes de passar à escrita!

Os seres mais 'fadados' para a escrita, profunda escrita assim ponderam... Bernardo Soares/Pessoa, Vergílio Ferreira, outros nomes a juntar...

Sem dúvida que a escrita é um acto solitário, se requer 'frio tremendo na alma'... talvez! Por vezes...

Sensibilizada pelo olhar amistoso em 'fragmentos'!
Um beijo,

LM,paris disse...

Bonjour, revenue sur Paris,
por onde anda?
Sem noticias do miguel, o mail nao funciona...desparecido, foi pela janela, com o vento.
ESpero que volte em breve.
Vou reler o texto sobre a verdade e a mentira...um bjo de Paris, com frio...
LM

Norah disse...

Lindo de morrer.
Bom fim de semana.

Norah

isabel mendes ferreira disse...

é. é solitário o ofício da escrita.


mas partilho.O. aqui.



beijo.

GUILLERMO OSAR disse...

É solidariamente solitário, Caríssimo...