Um novo rumo para Portugal - Parte IX


Segundo Fernando Pessoa o lugar de cabeça do Quinto Império estava reservado a Portugal, como podemos ler no prefácio do “Quinto Império” obra de Augusto Ferreira Gomes em parceria com António Maria Pereira editado em 1934, em que Pessoa expõe a sua interpretação da profecia de Bandarra.

A esperança do quinto Império, tal qual em Portugal a sonhamos e concebemos, não se ajusta, por natureza, ao que a tradição figura como o sentido da interpretação dada por Daniel ao sonho de Nabucodonosor.
Nessa figuração tradicional, é este o seguimento dos impérios: o Primeiro é o da Babilónia, o Segundo o Medo-Persa, o Terceiro o da Grécia e o quarto o de Roma, ficando o Quinto, como sempre, duvidoso. Nesse esquema, porém, que é de impérios materiais, o último é plausivelmente entendido como sendo o Império de Inglaterra. Desse modo se interpreta naquele país; e creio que, nesse nível, se interpreta bem.
Não é assim no esquema português. Este, sendo espiritual, em vez de partir, como naquela tradição, do Império material de Babilónia, parte, antes, com a civilização em que vivemos, do império espiritual da Grécia, origem do que espiritualmente somos. E, sendo esse o Primeiro império, o Segundo é o de Roma, o Terceiro o da Cristandade, e o Quarto o da Europa – isto é, da Europa laica de depois da Renascença. Aqui o Quinto Império terá que ser outro que o inglês, porque terá que ser de outra ordem. Nós o atribuímos a Portugal, para quem o esperamos.
A chave está dada, clara e obscuramente, na primeira quadra do Terceiro Corpo das Profecias de Bandarra, entendendo-se que Bandarra é um nome colectivo, pelo qual se designa, não só o vidente de Trancoso, mas todos quantos viram, por seu exemplo, à mesma Luz. Este Terceiro Corpo não é, nem poderia ser, do Bandarra de Trancoso. Dizemos, contudo, que é do Bandarra.

A quadra é assim:

Em vós que haveis de ser quinto
Depois de morto o segundo,
Minhas profecias fundo
Nestas letras que VOS pinto.

Passando depois Pessoa à interpretação minuciosa da quadra, que por ser longa, não se transcreve aqui.

9 comentários:

Rui Martins disse...

As profecias têm como grande missão numa sociedade criar coesão, e um objectivo/desígnio nacional. Por isso estão na base de grandes nações como a Maia, a Romana (as profecias celestinas), a Judaica, e até a Cristã e a Islâmica (que podem ser interpretadas como "nações" num sentido lato).

O que falta no mundo moderno é precisamente uma visão e expectativa profética que oriente e crie referências para as sociedades materialistas e imediatistas em que vivemos. O retorno à crença no valor social e moral das profecias devolveria ao Homem o seu lugar num mundo que não se esgota no seu aspecto material.

PiresF disse...

Como diz José Gil, é o medo que nos tolhe e, directa e indirectamente, nos inibe de expandirmos a nossa potência de vida, e mesmo a nossa vontade de viver.
De certo modo, pode perguntar-se se a própria não-inscrição, toda essa actividade saltitante do - toca e foge -, esse constante desassossego dos portugueses, não provém do medo. Porque este arranca o indivíduo ao seu solo, desapropria-o do seu território e do seu espaço, deixa-o a sobrevoar o real, em pleno nevoeiro.
Enquanto dispositivo mutilador do desejo, o medo predispõe à obediência. Amolece os corpos, sorve-lhes a energia, cria um vazio nos espíritos que só as tarefas, deveres, obrigações da submissão são supostos preencher. O medo prepara impecavelmente o terreno para a lei repressiva se exercer.
O português adquiriu, dentro de certos limites, reflexos de não obediência à lei. Não obediência não significa desobediência, pelo contrário, é uma maneira de escapar ao ditame estrito dentro do próprio âmbito da lei. Escapa, pois, não escapando à lei geral.
É o que o povo chamou a prática do - desenrasque - que, em esferas mais elevadas, conduz à beira (quando não ao âmago) da corrupção.

A.J.Faria disse...

Olá, Pires!
...nós somos o país que a nossa mentalidade consegue construir!
Por outras palavras...nós temos o país que somos!
Um abraço,

spartakus disse...

tou finalmente a apanhar-te. um abraço.

Sá Morais disse...

Somos um país por cumprir... As mentalidades estão é adormecidas ou tolhidas pelo frio destes tempos...

Outro assunto: Caro Pires, acredite que tenho pena que não consiga comentar no meu blog, pois respeito bastante as suas opiniões e pontos de vista. Infelizmente sei pouco sobre estas coisas técnicas dos blogs. Talvez o Rui nos possa elucidar sobre esse problema. Abraço,

Sá Morais

PiresF disse...

Amigo António!

Dizes que “temos o país que somos”, por ora, pode até ser que tenhas razão, mas prefiro pensar que teremos um dia o país que merecemos. Acredito, que este povo ao qual pertencemos e que é o nosso, merece muito mais e, acredito que o futuro se encarregará de dar razão, aos que defenderam antes e aos que defendem agora este desígnio.

……………………..

Spartakus!

Nem tudo o que parece é, talvez por isso, eu dizia à Cristina aquando do nosso pequeno equivoco, que antes de me julgar deixasse amadurecer a palavra. Somos neste mundo precipitados no julgamento dos outros e eu, que até detesto aquelas carinhas que alguns blogueiros decidem introduzir nos seus textos, para dar alguma expressão facial ao que dizem, sou obrigado a admitir que em determinadas circunstâncias ajudarão a situar o plano da conversa.

Espero que estejas como dizes a apanhar-me, que será o mesmo que dizer; estares a apanhar alguém que acredita que o nosso país tem futuro e que tem uma fortíssima esperança que o tenha, alguém que acredita que este povo é bom e tem um desígnio superior, alguém para quem, e como dizia Agostinho; o presente é uma passagem necessária para algo maior, alguém que tem orgulho, não do que vê agora no seu país, mas da sua história, das suas gentes e do seu futuro.

Espero sinceramente que me apanhes, amigo.

Um abraço.

…………………

Sá Morais!

Concordo plenamente com o seu comentário.

Quanto ao outro assunto: Eu até já falei com o Rui, mas ele ainda não deve ter tido tempo para dar uma olhada, se é que não deu já. Acontece, que nem no emprego nem em casa consigo entrar nos comentários, mas o problema deve ser meu, já que outros conseguem e eu também já consegui depois daquela nossa “conversa”, mas estou agora de novo sem conseguir.
Ainda hoje tentei nos seus dois blogues e nos dois últimos posts de cada um e nada.
Acredite que tenho pena, não que tenha muita coisa a comentar, mas porque, me dá prazer assinalar a minha passagem em blogues de gente com a sua cultura e a sua forma de pensar e estar.

Um abraço.

Era uma vez um Girassol disse...

Eu acho que vos apanhei...mas não corro tanto...!!!
Esqueceste-te, Pires, o que nos tolhe não é só o medo e a cultura do desenrasque, como resultado daquele( consequência da não-inscrição)...Segundo José Gil existe outro factor muito importante, à semelhança aliás do que acontece com a sociedade brasileira, que trava fortemente o desenvolvimento: a bendita inveja, a desgraçada, que não nos deixa medrar "de todo"...
Estou de acordo com o Rui, quando diz que "O que falta no mundo moderno é precisamente uma visão e expectativa profética que oriente e crie referências para as sociedades materialistas e imediatistas em que vivemos."
Também acredito...Acham que vos apanhei????
Bjs

PiresF disse...

Olá Girassol!

Não acho que nos tenhas apanhado agora, acho que já nos tinhas apanhado e talvez por isso, não posso deixar de assinar, o teu correctíssimo comentário.
Obrigada por isso.

Um grande, grande abraço.

PS: José Gil, foi considerado entre os 25 maiores filósofos da actualidade pelo Le Nouvel Observateur, não sei o quanto o conheces, mas é uma leitura imprescindível.
Eu conheci-o pela mão do Rui Martins.

Era uma vez um Girassol disse...

Só li "Portugal Hoje - O Medo de Existir. Imprescindível, esclarecedor, aliciante. Acho que até ter sido escrito por José Gil, moçambicano, muito pouco se tinha acertado acerca das eventuais causas que levariam Portugal a ficar para trás na corrida para o desenvolvimento. E, pelos vistos, continuamos a imitar o caranguejo...Porque não aprendemos a voar como o falcão?????
Bjs