O Sem Abrigo


Demos de caras no virar da esquina e assustei-me sem saber se havia motivo. Era alto, magro e envelhecido pela pobreza visível nas mãos inchadas das frieiras e nos lábios gretados pelo cieiro. Olhou-me. Primeiro com cara de poucos amigos, mas ao ver-me assustado depressa mostrou um sorriso tranquilizador. Compreendi que a carantonha inicial com que me tinha brindado se destinava a afastar possíveis e inesperados inimigos. Reparei, olhando-o agora mais calmo, que nos braços e na cara as impigens abriam feridas, eram as feridas da pobreza que o marcavam e marcam muitos sem-abrigo nos Invernos rigorosos.
Perguntei-lhe sem grande convicção se precisava de ajuda. Ele tirando a boina suja e safada do muito uso, abanou a cabeça num movimento concordante. Arrependi-me de imediato ao ver-lhe grandes peladas na cabeça e a visão da dentadura negra e desfalcada com que me brindou.Ele avançou um passo e eu recuei um outro, ele então recuou mas eu não avancei, estava bem assim. Naquela confortável distância lancei-lhe algo contrariado a pergunta: - E precisas do quê? Ele olhou-me de novo sem falar e com a mão que antes tinha no bolso do casaco fez um gesto que entendi como um vai-te lixar.
Compreendi que o meu recuo anterior, embora instintivo e talvez por isso, lhe tinha transmitido a mensagem errada do que eu era. Eu simplesmente não esperava aquela situação, não estava preparado, tinha sido apanhado de surpresa. Quem se julgava aquele esfarrapado sujo e doente para me julgar a mim? Recuou nos passos mas um pouco de recuo nos gestos não lhe faria mal algum.
Dispus-me a sair dali e ataquei a intenção em passo rápido quando, ele num sinal de dedos me pediu um cigarro. Naquele momento e pela primeira vez tive pena de não ser fumador, não era, em consequência não tinha cigarros. Ele com novo gesto de mão despachou-me como se dissesse que não era ali desejado.

No dia seguinte voltei. Vinha preparado com um maço de Marlboro no bolso e estava desejoso de ver a cara dele quando lho mostrasse. Agora que já lhe podia dar alguma coisa queria ver se me mandava lixar.
Procurei-o sem resultado, vi nas ruas por perto se lhe encontrava sinal mas nada, devia andar por outros sítios, pensei. Convenci-me que voltaria por ali e nos três dias seguintes voltei com o maço de cigarros no bolso, mas tinha desaparecido.
Finalmente, ao quarto dia, avistei-o ainda ao longe. Estuguei o passo sempre com o olhar a vigiá-lo não fosse ele desaparecer mais uma vez e aproximei-me. Quando se virou vi que não era o mesmo, este era mais novo e sem os sinais de doença do outro, era também mais forte e mais agradável. Olhou-me e sorriu de imediato dando as boas-noites. Aproximei-me ensaiando um sorriso e sempre preocupado em não demonstrar receio. Então, quando estávamos à distância de um braço, cumprimentei-o e estendi-lhe a mão com os cigarros. Ele com o gesto de os aceitar, agarrou-me o braço e desferiu-me um violento soco bem no meio da cara.
A pancada foi tal que fiquei um bom bocado atordoado, devia ter-me partido o nariz, pensei meio zonzo e com dores enquanto o agressor aproveitava para me aliviar da carteira e outros pertences. Felizmente um grupo de Skin Heads que descia do Bairro Alto, ao verem o que se passava, puseram o agressor em fuga seguindo-o em grande correria na direcção do Cais do Sodré. Após os ver desaparecer e ter recuperado a serenidade necessária, desloquei-me com alguma dificuldade à esquadra da zona com o propósito de receber os primeiros socorros e, principalmente, para apresentar queixa devido aos documentos que o agressor levara consigo. Um dos agentes quis vir comigo ao local e apercebi-me que se passava mais alguma coisa quando me pediu para no dia seguinte me apresentar na Judiciária.
Depois de uma longa conversa com o agente destacado para o caso, fiquei a saber que o larápio agressor do dia anterior era suspeito de ter morto um sem abrigo. Os indícios apontavam para a possibilidade de ser o mesmo que procurei.
Ao ver que a informação me abalara disse-me que os familiares do homem vinham a caminho para a identificação, mas era necessária também a minha confirmação de que era aquele homem que eu procurara e que tinha visto naquela noite. Movido pela curiosidade acedi deslocar-me com um agente à morgue para a necessária identificação.
Acabados de chegar fomos informados que o irmão do sem abrigo já o tinha identificado. Dirigimo-nos à sala onde estava o cadáver e ao transpor a porta dou de caras com o meu pai que, lavado em lágrimas, me olhou surpreendido.Atónito, instantes depois e pela sua boca, fiquei a saber que aquele sem abrigo era seu irmão, portanto meu tio. O tio mudo desaparecido e de quem eu ouvia falar desde que me lembrava.
Fazia dezoito anos que nunca mais soubéramos dele, agora, devido a um papel encontrado no bolso do casaco onde alguém tinha escrito que ele era o José Emanuel Laranjeira e que procurava o irmão António Leonardo Laranjeira tinha sido identificado.
Quando interiorizei a informação, já sabia que era essa a ajuda que ele queria. Ao avançar para mim preparava-se para me mostrar o papel, e eu, seu sobrinho, tinha recuado com medo.
Instantes depois compreendi finalmente que não era medo. Era algo pior, mais profundo e enraizado, era um mal de alma.

10 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

e a alma é sempre o lugar primeiro a ser "ferido".


!


e assim de um só dia se renova este blogue.

:)

volto.

mais tarde.

ângela marques disse...

... com pele de galinha, para ficar a pensar.....


obrigada, PiresF.

Abraço.

simplesmenteeu disse...

Ventos frescos de renovação!

Vim matar saudades! Caminhos de outros caminhos...

Um conto que de tão real, dá para o sentir na pele.
Histórias que fazem as ruas da cidade.
Segredos esquecidos no silêncio da alma.


Um beijo

Gostei muito.

Anónimo disse...

o desencontro.encontro da vida ao sabor de uma imaginação kafkiana.

.


submergimos.

.

e a respiração é um choro.


.


em gesto arrepiado.

.

bom e urgente re.ler.


.
beijo.


y.

Anónimo disse...

Amigo PiresF

nestes movimentos conturbados em que vivemos

este conto sacode-nos para realidades tão próximas.

Vibrei de emoção e alcancei o discernimento de olhar nos olhos as noites desabrigadas, a fome mal comida e a paciência (in)contida numa esperança que teima em não chegar.

Saio porque sou obrigada

mas volto para matar saudades.

Beijo

P

Bill disse...

Quem levou o soco fui eu... tu sempre com finais que temos que nos segurar na cadeira, mas esse... Faz cada um pensar no mal que carrega, na alma um mal soturno e pesado.

Belo e saboroso.

(=

triliti star disse...

difícil, muito difícil...




...a vida é uma merda, mesmo na ficção.



(será que a moderação dos coms deixa passar?)




abraço

Mié disse...

bolas... deixaste-me com as lágrimas a taparem-me o olhar...

...ficção mas tão igual a tantos contos de vidas reais.

beijo grande.

R. Rudoisxis disse...

Caro Pires
Delicioso o texto, mesmo sem saber se é baseado em factos reais ou não. Certo é que prende o leitor à história.
Uma oportunidade perdida____________ e aqui não comento pois o texto é seu. Deixo apenas um traço para reflexão.
Quando vejo um sem abrigo ou um mendigo ao olhar para ele penso :- Eu só não sou aquele homem por mesericórdia do criador universal ou porque o destino não me pôs ali.
Que se lhe for dada outra oportunidade, possa actuar de imediato são os meus votos e o ensinamento que tirei do seu belo texto.
HUG from Rudoisxis.

isabel victor disse...

"a linha ideológica do fio dental"

?!


fizeste-me rir. sorrir :))


beijo

sodade



iv