Mais algumas razões da pertinência do Acordo Ortográfico.


Para além da raiz da palavra e família de palavras, coisas da etimologia que há muito se me varreu, existem outras que são incontornáveis e entroncam na artificialidade da ortografia que, como sabem, e porque resulta de um conjunto de regras político-administrativas convencionadas e não de séculos de interacção entre fala e escrita, não é uma coisa natural. O resultado, pese embora a quem com honestidade intelectual é contra o Acordo defendendo razões culturais e históricas da grafia (graphia) de cada palavra, tem sido o de não existir qualquer estratégia para se escrever correctamente que não passe pela memorização do léxico e também pela interiorização das regras devido à experiência que vamos adquirindo.

Quando temos em atenção a combinatória de uma imagem acústica com um significante e, na definição, tivermos em conta a língua escrita, concluiremos que, o significante não intervém só na imagem acústica mas também na imagem gráfica, depois, o Acordo, só trata de pronúncias cultas não se debruçando sobre as não cultas, logo, não elimina nenhuma palavra ou qualquer letra que se leia numa pronúncia culta, razão porque, os casos em que a resistência à mudança assume contornos imperialistas, estão normalmente enfermos de inexactidão e lançam poeira com exemplos como “facto-fato” ou “pacto-pato” que não alteram, mas aceitam pacificamente (e muito bem) as modificações naturais da língua como a adopção dos termos acabados em ismo: salazarismo, guterrismo, ou expressões novas como ciberespaço e teletrabalho porque, a língua, é um organismo vivo que muda e se adapta aos tempos e costumes, não fosse isso e ainda escreveríamos monarchia como o fazia Fernando Pessoa depois da reforma de 1911.

Ora, Portugal, enquanto Pátria da lusófonia, só tem a ganhar com este acordo que, para além de simplificar a escrita ao retirar parte das consoantes sem valor fonético e que só existem por tradição ortográfica e similaridade do português com outras línguas românicas, simplifica também o processo de escrita e o de aprendizagem, já que, não altera a sintaxe, não cria ou elimina qualquer palavra, nem existe a intenção de acompanhar no extremo a naturalidade com que se fala, nem tão-pouco interfere com a coexistência ou regras linguísticas regionais, depois, é também essencial para a unificação institucional e plural da língua nos países da CPLP que, unificada, ganhará poder de afirmação nas instâncias internacionais e é, uma medida fulcral para que a língua dos lusofalantes continue bem de saúde, não siga rumos diferentes e, um dia, não tenhamos de enfrentar o salazarista “orgulhosamente sós”.

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6 comentários:

Bill disse...

O que mais leio é: Burocratas estão a nos empurrar pela garganta essas mudanças ortográficas, bla bla bla está sendo impostas legislativamente bla bla bla, parecem mais preocupados em aceitar tal acordo por ser imposto, do que por acharem que não fará diferença.

Ou seja sobre o mesmo não há muito a dizer já que as mudanças só afetam as pronúncias cultas (como tu bem disse), a aprovação do Acordo Ortográfico me parece a ser a condição chave para a definição de uma política lingüística de bases comuns na CPLP, um ponto de partida para uns, uma esperança para outros, mas a fortificação de todos.

O acordo não irá acabar com expressões locais, continuaremos nós aqui no Brasil a tomar café da manhã e em Portugal continuará com o pequeno almoço.

Claro que em Portugal deve soar mal nossa maneira de falar algumas palavras, nossas diferenças com relação ao português daqui ou dali está além da ortografia, é sobre tudo de ordem lexical, levará um tempo para que as pessoas se acostumem com a nova grafia, talvez até em muitas partes nem a usem , mas na maneira geral, na aproximação dos países ela vai ajudar queiram ou não.

Já li que o mercado editorial é o ponto forte, que a briga será grande, não sei realmente, minha esperança fica na possibilidade de ler coisas novas de Portugal, aqui (Brasil) conseguir um bom livro editado em Portugal é uma luta gigantesca, será que isso ira mudar? Poderei encontrar livros de “Agostinho da Silva” aqui no Brasil, já que isso é quase impossível, parece que poucos sabem por aqui quem ele foi e pelo que lutava.

Que venha o acordo!!!

Abraços.

[s]s

Clavis disse...

e interesses que se estão a congregar para defender editoras e tradutores (graça moura) que não fizeram a tempo o trabalho de casa e agora clamam por moratórias de 10 anos...
Portugal tem duas opções: ou embarca na mudança global da grafia (apenas isso!) da língua ou deixasse ficar para trás, dando ao Brasil essa liderança. Ou caminhamos lado a lado ou atrás.
A escolha é afinal apenas essa.

Anónimo disse...

no que me diz respeito. acho otimo

(será assim?)

brinco...


mas lá que vem facilitar nos acentos vem...
sento-me à espera.

boa noite.

:)


pyano.


lá lá lá...

Sara disse...

Voltamos das férias.
Dê uma passadinha por lá.
Bjs
Delicatessen

Profanus disse...

a lingua é tão impostora às vezes que até os políticos decidem isto e aquilo para esconder o rosto, Ouvimo-los Senhor dos Paços Perdidos que....

profanus disse...

A pronuncia culta em Lisboa .... não a ouço, como se defende o inexistente....?!!!! Há muito que a língua-pata brava é dominante, e a clássica não abandona o estatuto de língua patroa , todas as outras variedades rosnam - dizem , ou falam salazar, já ouviu anda-se sempre com ele na língua , observe com atenção, e diga-me qualquer coisa.... Defendo a variedade como essencial no caso do português.... já viu que nem sequer uma Academia da línguaa temos... apenas uma alita na Academia Das Ciências...
Já viu o que fez o Estado Espanhol ali ao lado , pudera a lingua de nações é um perigo, França, o que fez, pudera Estado colonial... E vem agora o portuguesito da silva, e acha tudo.... de xico esperto, passou a francisco o expert.... cordialmente