Ofício de Poeta

A poesia tem um papel na cultura, como a matemática e a música. Ela estabelece talvez um plano original no mundo do pensamento e imaginação, plano de síntese das forças espirituais, ponto onde todos os trabalhos do homem, o seu esforço e história, se unificam no súbito conhecimento de uma grande realidade: a vida do ser humano sobre a terra. Considero que todas as formas expressas da imaginação se concluem na verdade poética. O teorema de Pitágoras, a invenção da roda e do parafuso, a descoberta do arado, a ideia da igualdade dos homens, as astronaves, a arquitectura funcional, a revolta contra os tiranos – tudo isso em que a civilização se aplicou, e foi e é um degrau imaginado no percurso para um tempo melhor, encontra a sua beleza ao atingir o poema. E o ofício daqueles que procuram revelar aos homens a beleza dos seus próprios actos não pode ser inútil, porque talvez se não lutasse tão ardente e pertinazmente, se não se possuísse a consciência da beleza da luta. É este papel que, quanto a mim, se destina à poesia. Assim, ela liga-se à história, reflecte-a na sua forma pura, fulminante.
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Herberto Helder
Extracto do artigo Ofício de Poeta, publicado na Revista êxodo - Coimbra 1961.

4 comentários:

Bill disse...

Muitiiiiitoooo bom o texto perfeito em tudo.
Mais informação =] Valews

Quanto a frase que eu coloquei no post do "Cervantes", eu a uso pra mim, não para os outros, sou muito critico com o que faço, as vezes me parece que meu raciocínio é demasiado longo, ficando assim sem foco, digamos que meus pensamentos me traem,
Por isso concordo com a frase, mais sendo usada para mim mesmo.
=]

[s]s

PiresF disse...

Eu também sofro dessa “doença” Bill, querendo sempre sintetizar o impossível.

Multimeida disse...

"Poderia hoje dizer-te uma frase...
mas a voz não me deixou.
Poderia ter recebido hoje uma resposta...

Há silêncios que nos fazem pensar...quando estamos na mais sensível e profunda meditação interior. "

por AJA imaginação

Anónimo disse...

Keep up the good work
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