A Orgia Estéril da Mentira… (*)

Descalcei-me e enterrei os pés na areia húmida da chuva que caíra pela manhã. A sensação, enquanto olhava o mar cinzento e chão, dos grãos de areia entre os dedos era relaxante … era o momento de preia-mar, onde pequenas ondas num bailado repetitivo lambiam a areia e bandos de gaivotas esperavam pela noite. Muito cedo, pensei… falta uma boa hora para o crepúsculo as abraçar… o céu, carregado de nuvens, denunciava que a noite não seria serena nem de luar.
Embriagado indolentemente pelo cheiro da maresia e o som cadenciado da rebentação, via-a ao longe e fixei-a enquanto caminhava na beira do mar. À medida que se aproximava admirei-lhe a forma esguia, o cabelo negro solto ao vento e o vestido leve. Vinha descalça, com uma toalha azul pendendo da mão. Nisto, e sem que algo o fizesse prever, virou-se repentinamente e caminhou na minha direcção.
Em choque de prazer, olhei-a com inconsciente e estéril pensamento. Que quereria aquela insólita e linda sereia de mim?… Parou quando chegou perto e depois de um instante cumprimentou: - Olá, boa tarde. Respondi-lhe dizendo que a tarde não fora grande coisa até àquele momento, mas tudo indicava que podia melhorar. Ela sorriu mas nada disse, estendeu simplesmente a toalha uns três passos à minha frente e sentou-se admirando o mar. Aproximei-me e sentei-me a seu lado, guardando uma distância educada mas não conservadora, já que, tinha sido ela que convidativamente se aproximara.
Puxei um cigarro sem parcimónia com a secreta esperança que um novelo de fumo amenizasse a conversa e, pensando que no linguajar é que está o ganho, acendi-o. O clic-clac clássico do zipo de estimação, pareceu interessá-la. Perguntei-lhe se queria um cigarro… aquiesceu estendendo a mão. Passei-lhe o maço donde tirou um voltando a estendê-la pelo zipo que me apressei a colocar na alva e frágil mão que senti quente e macia. Acariciou-o como uma apreciadora enquanto lhe admirava a finura de dedos. Acendeu-o, protegendo a chama do pouco vento com uma delicada mão em concha e após uma forte puxada, perguntou-me o que fazia ali… respondi-lhe que descansava de um dia demasiado complicado, e, enquanto o fazia, embalado na orgia do prazer manobrava de forma a desenvencilhar-me da aliança que teimava em não sair do anelar. Nisto, num movimento rápido e inesperado, virou-se, e mostrando uns lindos olhos de azul inocente, disse que ia ali todos os dias àquela hora num ritual que se habituara a cumprir havia anos.
Eu sabia que ela me tinha visto na tentativa infrutífera de tirar a aliança e, ao ser apanhado, tinha enrubescido desmesuradamente como sempre acontecia quando era apanhado em falta no esvoaçar da minha capa de herói. Ela não desviara os olhos e eu não era capaz de a encarar. Refugiava-me na linha agora negra do horizonte e esperava que a brisa deste fim-de-tarde, num sopro arrefecedor, me devolvesse a cor original.
O tempo escorria e eu entregue à minudência matemática de contagem das ondas tentava, num pretendo impoluto, afastar qualquer culpa; eu era homem e ela uma mulher belíssima, a tentação tinha prevalecido, objectiva e subjectiva como todas as máscaras da alma humana.
O silêncio pesado durava há muito quando ela inesperadamente me perguntou: - Que faz aqui a esta hora, não é casado? O rubor voltou ainda mais desconfortável qual punidor da velhacaria anterior. - Sou e tenho dois filhos, acrescentei como que a penitenciar-me da nabice anterior já que o propósito estava frustrado. - Ama a sua família, voltou a perguntar. Após um instante respondi-lhe que sim, não valia a pena mentir, só faria papel de estúpido.
Estendeu então a mão para me cumprimentar, dizendo: - Chamo-me Marta, sou cega de nascença.

(*) Conto revisto e republicado a propósito do post anterior e porque me apeteceu.

A verdade em defesa da mentira, num “post”, aparentemente, longuíssimo

Na vida é assim; cônscios, reflectimos sobre o real ou imaginário, tentamos iluminar o caminho de outros com vetustez e austeridade automatizada e temos sempre no camarote donde assistimos o diagnóstico das ressacas, por vezes, com laçarote até, quando, certeiro, seria sacarmos de soluções, quais resistentes entrincheirados no optimismo, para combater o depósito de valores basilares no museu da evolução humana. Mas é a educação de TV, da balbúrdia dos artefactos e até, caso em apreciação, do suborno para que a verdade, a mais dura e inconveniente, seja dita mesmo que resmungue ou grite à felicidade e destroce a própria família.
Diz o RAP, na “Visão” 811: “o que o Momento da Verdade vem demonstrar, e de forma fulgurante, é que, mesmo a troco de dinheiro, dizer a verdade nunca é boa ideia.”. Ora, se substituirmos a compreensível hipérbole do adverbio de negação “nunca”, por um conservador e ponderado “nem sempre”, concluiremos estar este carregado de razão e, com alguma liberdade poética, podemos sublinhar “que a verdade é um bem precioso, demasiadamente precioso para se partilhar com toda a gente”.
Entrando no domínio da polémica propriamente dita, o assunto dá vontade de falar porque é anedótico discutir a anedota que é este “reality show”, os jornalistas destacam-no e exploram-no, é tema de conversa nos cafés e em blogues e o que não falta é gente a contemporizar com esta mediocridade (sem nuances, porque não vale a pena aguçar o engenho). Tudo isto é triste, incluindo este “post” que aponta o dedinho qual policia dos valores morais dos outros, mas nada inocente se atentarmos na exploração básica a que se prestam estes emoticons tontos ávidos de dinheiro (corruptos?), que regridem a idade mental e engrossam a fileira das falsas virtudes colectivas.
Ou seja, correndo o risco de desenterrar alguns pruridos e passar a ser um traste em quem não se deve confiar: a mentira piedosa, bondosa, elegante, educada (como queiram), tem mais virtude que a verdade besta, imbecil e anti-social, a verdade e a mentira são complementares num aparato linguistico que, tenha uma existência que vá além daquilo que uma pessoa diz a outra numa dada ocasião.

Isto pedia mais alguns argumentos que desmontassem alguma possibilidade de polémica, mas seria ridículo dispensar mais meia dúzia de linhas a este assunto.

Canalha Miúda (breve episódio das férias)

A cena decorre no Sul do País, numa esplanada como já há poucas (perdoem-me o saudosismo), completamente ensombrada por grandes arvores.
Os personagens são o empregado e dois familiares meus e, a protagonista, é uma rasteirinha doce de quatro anos. O ritmo é o de férias, suave, como deve.

O empregado, solícito, espera a finalização do pedido.

A mãe, virando-se para a rasteirinha doce de quatro anos, pergunta:
- Queres um “Ice Tea” de manga?
- Sim!
Olhando o empregado, a mãe termina o pedido:
- É também um “Ice Tea” de manga!
Nisto, a rasteirinha criatura de quatro anos, roda a carola loira, encara o empregado e subvertendo os princípios hierárquicos, qual “franco-atirador” (comas hesitantes), complementa:
- Comprida!

Após uma fracção de tempo necessário à assimilação do singular complemento, o solícito empregado, com manifesto senso de humor, perde a compostura e resgata lá dos confins uma gargalhada que os presentes acompanham.
Claro está, como “bloguiano”, pensei: Ah, tão giro!… este tema dava um “post”. Enfim…
Deixo-vos com um aforismo de Pamuk: “Só os idiotas são verdadeiramente inocentes”.

A Net, esse alter que assoma, distorcendo e invertendo a realidade para a tornar mais verdadeira.


Consigo visualizar esse “mentir”, principalmente a verdade desse mentir… o outro lado do espelho, dos simbolismos... onde se mente para melhor atirar a verdade suja ou o mistério do belo... onde num gesto que não é isolado se atiram para o écran palavras daquilo que sentimos na altura... pegada sobre pegada guiamo-nos pela luz das estrelas que nas folhas ficaram... um jogo ontológico onde se mente, na medida em que se subverte a realidade comum com a arte mágica de remover dos rostos as crostas duras da verdade rotineira, onde as palavras queimam por dentro e são a senha que dá acesso ao mundo dos vivos... o cosmos inteiro confundido numa mistura explosiva... um poema em que residem sentimentos e sentires... sim, a poesia serve para reencantar o mundo, serve para olharmos para nós e pensar; onde me enganei no caminho?... quem sou eu, afinal?... interrogações sempre sem resposta mesmo do outro lado do espelho, porque a verdade está tão subornada pela linguagem comum que a mentira se torna uma distinção poética e de toda a arte.

O poder da mentira é o de dizer a verdade!!!!!

Sacudamos os dentes que procuram rasgar-nos as carnes e dilacerar-nos o ânimo... deixa-me ir contigo até ao fim mais agudo da tua vida, pois só a mentira permite dizer a verdade para lá das verdades comuns e mentir acaba sendo uma necessidade absoluta neste jogo de aparências quotidiano... do apelo da selva que perdura e onde os predadores renascem mordendo trigo novo... onde as palavras são jogos de espelhos em que o lado direito parece ser o lado esquerdo, mas é dessa forma que expressamos as nossas emoções e sentimos tanta coisa quando escrevemos; pensamos em alguém que amamos... que não gostamos... numa paisagem... num momento único vivido... e nem cantos nem lágrimas poderão parar o destino marcado a cada um de nós e a todos nós, quando nos foge o tempo no espinho duma rosa branca.
Na verdade, todos os momentos são únicos, pensamos nesse instante sentado a sul dos astros... e quando voltamos a pensar já não conseguimos pensar da mesma forma, aquele instante ficou cristalizado, é apenas daquele momento e de mais nenhum... da fera acorrentada na praia ou do deus indulgente que inventou o pecado original.

Será solitário o oficio da escrita, requererá silêncio e um frio tremendo na alma para que não trema a mão?

Leio Dostoievski, no livro "Noites Brancas", e sublinho de passagem o sublime simples como recado a alguém: "Nunca esquecerei a história duma linda e pequena casa cor-de-rosa claro. Era uma casinha de pedra, olhava-me com um ar tão afável e mirava tão orgulhosamente as suas frias vizinhas, que o meu coração se alegrava sempre que passava diante dela."

E, relendo “As grades” de Sophia, sinto que a poesia existe, tanto na forma como se sente o que se lê, como vendo o rosto belo da mulher de primavera que Boticelli cristalizou na sua plenitude e abstraio-me do verão, subverto-o até o conseguir pressentir, e escrevo na memória um conto sobre o contador de histórias que declama a rosa descosida das sombras das suas pobres vestes, e não me surpreendo por o silêncio se demorar nas minhas mãos quando concordo com Caeiro:

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando a janela abre.

Reflexos de luz

Num tempo de tormentas que consomem, de ilusões que se esvaem sem um lamento ou lágrima embriagada da tristeza do fundo dos dias, fizeste-me sorrir. E, no reencantar de sentimentos e sentires, curvados no brilho das estrelas dos teus olhos, o sentimento cresceu e quis ser pássaro das rendas dos silêncios, e no som das brumas, nas imagens de veludo, nas palavras de crepúsculos doirados… poder voar!
Então, tudo renasceu… simples, calmo e infinitamente belo onde antes era desilusão.
E num céu azul de sonho, onde escrevo as vozes que ouço dentro de mim e me afasto daquilo que sou, torno-me vento, arco-íris, fonte de paixão ao encontro dos braços que suavemente abres… e danço no som do teu coração.

Palavras jogadas à noite...

Levantamo-nos numa noite em que a insónia é maior que o cansaço e, no silêncio breve, utilizamos as palavras como se tivessem crescido connosco; fiéis, discretas, superlativas… escrevemos porque existe uma abstracção mental onde tudo se encaixa, ligando o passado ao futuro onde a ponte é o presente. Admiramos os que procurando resultados ou respostas com olhos de ver, encontram interrogações e o outro lado da humanidade que é ela mesma, com as nossas imperfeições onde na sombra que se esconde do sol se desenvolvem as máscaras…

Nada disto faz de mim um homem melhor… nem menos que um pigmeu nem mais do que um gigante… são apenas expressões deliberadas, ecos admiráveis convocados para melhor disfarçar os silêncios com que cuido das minhas crostas.
Reforço finalmente uma ideia: entre o mais e o menos infinito o zero também existe, e insisto na metáfora que roubei na minha infância: há um sonho com sabor a sol dentro de mim.

Maré Alta




Às mil e tantas horas d’uma manhã raiada,
Boca na tua, pele de espuma em rito sagrado,
Escorro em ti, como em fêmea desabitada
E a paciência de um espraiar cadenciado.

E no silêncio breve de um tempo adormecido,
Sensível e vibrátil como as mãos de uma guitarra,
Invado-te em plural de nós, venial e decidido.

E Tu, sôfrega mas imperturbável,
Liberta das amarras da razão,
Espaçadamente me bebes
Rumando a um mar de emoção.

E segredas-me; vem comigo, amor. Vem!
Como um só partiremos nesta viagem.
Para além do poema e do tempo que nos sustém.


Se Sócrates pode dizer que o Louçã não tem currículo nem idade, eu posso repor resíduos.

Aqui a atrasado no lançamento do livro de um amigo, muito se disse e muitas interpretações se ouviram a quem se pronunciou. No final, o autor, em roda de amigos confidenciava: não supunha ter escrito o livro de que falaram.
Não o fez em tom de zombaria, antes o contrário, confirmando que uma obra não se esgota quando o seu autor a termina.
Reflectindo sobre as palavras que uma amiga em tempos escreveu, concluí que uma obra, qualquer obra, nunca está completa; passa a ter outras histórias que são as interpretações que cada um lhe faz, e isto justifica-se essencialmente porque o ponto de partida não é o mesmo da chegada. Ou seja: um artista comunica com os outros por uma linguagem diferente, seja a do discurso escrito, das tintas, da pedra... e fá-lo por sentir a urgência de “dizer” algo que de outra forma não é capaz, por sentir a insuficiência das palavras procura imagens ou texturas ou sons... criada a obra, ela passa a ter vida própria e uma lógica própria, ultrapassa o criador retendo deste a assinatura e o desejo de algo. Tentar dizer algo “sobre”, seria quase o mesmo que calar um filho, considerá-lo mudo e incapaz de falar de si e do mundo.
A obra, qualquer obra, tem vida própria, ganha essa vida ainda antes de acabada, quando “diz” como quer ser... um quadro pede cores e traços, um texto foge ao traçado inicial quando as palavras se impõem como uma força que escapa ao controle. O raciocínio a que o autor pretende obedecer escapa-lhe desde logo, nunca lhe tomou as rédeas, antes foi tomado por elas e é preciso ouvir a obra falar, escutar o que tem para dizer.
O autor a falar da sua obra... a obra a falar do seu autor... um diálogo de surdos porque o cruzamento das vozes é enorme e, no entanto, fazemos silêncio para ouvir e tentar perceber.
Claro que nem sempre isto acontece, e então o “leitor” descobre-se no autor e algumas vezes o inverso é também verdadeiro, porque a arte tem vida própria e abre mundos não sonhados, para quem a cria e para quem a recebe.

Acontecimento cultural do ano


Na ocasião, será igualmente apresentada, por Jorge Telles de Menezes, a obra "A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido", de Paulo Borges (colecção NOVA ÁGUIA)

Lista completa de lançamentos:
http://www.novaaguia.blogspot.com/

FAÇA PARTE DESTE PROJECTO. ASSINE A NOVA ÁGUIA:
http://www.zefiro.pt/novaaguia


Como é sabido, A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Carneiro, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.
A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu "espírito", adaptado aos nossos tempos, ao século XXI, como se pode ler no nosso Manifesto.
A NOVA ÁGUIA está vinculada a três entidades : Associação Marânus/ Teixeira de Pascoes (sede Norte), Associação Agostinho da Silva (sede Sul) e MIL : Movimento Internacional Lusófono. Inspirando-se na visão de Portugal e do Mundo de Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, a NOVA ÁGUIA assume-se como um órgão plural.

Tal como n' A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas. O tema do primeiro número é "a ideia de Pátria: sua actualidade".
Orgulhamo-nos de ter conseguido o contributo de gente tão ilustre como Agustina Bessa Luís, António Cândido Franco, António Telmo, Ariano Suassuna, Fernando Echevarría, Joaquim Domingues, Manuel Ferreira Patrício, Mário Cláudio, Miguel Real e Pinharanda Gomes, a par de muitos outros.
Para além disso, neste primeiro número poderá ainda encontrar uma série de outros textos, sobre outras temáticas:

NOVA ÁGUIA : ÍNDICE DO PRIMEIRO NÚMERO

- EDITORIAL/ MANIFESTO NOVA ÁGUIA/ ÓRGÃOS
- Manuel Ferreira Patrício, APROXIMAÇÃO À IDEIA DE PÁTRIA
- Pedro Teixeira da Motta, DO RENASCIMENTO DA NOVA ÁGUIA

SOBRE A IDEIA DE PÁTRIA: TEXTOS

Mário Cláudio, DA PÁTRIA
J. Pinharanda Gomes, ANAMNESE DA IDEIA DE PÁTRIA
Pedro Brum, PÁTRIA E LIBERDADE
Paulo Feitais, PENSAR A PÁTRIA HOJE: QUE SENTIDO?
Paulo Borges, DA IDEIA DE PÁTRIA AO SENTIDO DE PORTUGAL E DA COMUNIDADE LUSÓFONA
Maria João Frade, SERMOS TUDO OU TODO?
Manuel Matos, A IDEIA DE PÁTRIA ENQUANTO REPRESENTAÇÃO IDENTITÁRIA
José Leitão, UM ARGUMENTO PELA IDEIA DE PÁTRIA
Joaquim Domingues, DIÁLOGO ACERCA DA PÁTRIA
Isabel Santiago, A LÍNGUA COMO PÁTRIA
Fátima Valverde, SONHO, SAGRADO E SILÊNCIO: TRILOGIA PARA UMA NOVA PÁTRIA
António José de Brito: A PÁTRIA: AINDA É POSSÍVEL…
Ana Margarida Esteves, FADO DOS FILHOS DA «DEMOCRACIA DE SUCESSO»?
Sérgio Sousa-Rodrigues, REPATRIAR A PÁTRIA
Samuel Dimas, PÁTRIA E MÁTRIA
Rui Martins, PÁTRIA: ONTEM, HOJE…E AMANHÃ
Rita Cardoso, POX VOP
Renato Epifânio, NOVE NOTAS & UM NOVO PARADIGMA PARA PORTUGAL
Paulo Ferreira da Cunha, REFLEXÕES SOBRE A DECADÊNCIA
Manuel Abranches de Soveral, A PERSPECTIVA DA ANDORINHA
Luís G. Soto, UM PATRIOTISMO PLURAL, LIMITADO MAS COMPROMETIDO
Luís Santos, A LUSITANIDADE NÃO IMPEDE A LUSOFONIA
Lourdes Cidraes, QUE LUGAR PARA OS NOSSOS HERÓIS?
José Eduardo Franco, O MITO DA EUROPA EM PORTUGAL
João Beato, LUSO, LUSÍADA, PORTUGUÊS
Dalila Pereira da Costa, UNIÃO E FUGA À PÁTRIA

SOBRE A IDEIA DE PÁTRIA: POEMAS

De A. Cândido Franco, Alexandre Vargas, Celeste Natário, Dirk Hennrich, Donis de Frol Guilhade, Emmanuel Gatete, Fernando Grade, , Isabel Mendes Ferreira, Francisco Soares, José Florido, Luís Filipe Cristóvão e Manuel da Silva Ramos, Renato Epifânio, Paulo Borges e Augusto Emilio Zaluar (com nota de Rainer Daehnhardt)

OUTROS TEXTOS

Ariano Suassuna, SOBRE AGOSTINHO DA SILVA
Romana Valente Pinho, ANTÓNIO QUADROS: PÁTRIA REAL E PÁTRIA IMAGINÁRIA
Miguel Real, FRANCISCO DA CUNHA LEÃO: PORTUGAL COMO HARMONIZADOR DE OPOSTOS
Renato Epifânio, MIGUEL REAL: UMA OBRA EM TRÊS LIVROS
Paulo Borges, PORTUGAL: MEDO DE EXISTIR OU TRANS-EXISTÊNCIA?

OUTROS VOOS/ OUTRAS VOZES

F. M. Palma-Dias, VIAGEM A TRACEJADO…
Dirk Hennrich, PAISAGEM E PÁTRIA
Doug Tarnopol, ESTE PAÍS [E.U.A] É UMA PÁTRIA?
Sinem Adar, ENCONTRARMO-NOS NO "OUTRO": MEMÓRIA E HISTÓRIA.
Francine Charron, A LUSOFONIA: OBJECTIVOS NOBRES E DESAFIOS DE GRANDE ENVERGADURA

OUTROS POEMAS

De Fernando Echevarría, Renato Epifânio, Paulo Borges, Paulo Brito e Abreu, João Carlos Raposo Nunes, Duarte Drumond Braga, Maurícia Teles da Silva, Esteva de Alba, , Amon Pinho Davi e Vicente Franz Cecim

DA ARCA

António Telmo, À TARDE E A BOAS HORAS

RUBRICAS

COISAS E LOISAS, de Pinharanda Gomes
O ESPÍRITO DOS LUGARES, de Manuel J. Gandra
AS IDEIAS PORTUGUESAS DE GEORGE TILL, de Jorge Telles de Menezes

VOOS TEMÁTICOS

LITERATURA ORAL E TRADICIONAL, de Ana Paula Guimarães
ARTES PLÁSTICAS, de Cristina Pratas Cruzeiro
MÚSICA, de Nuno Côrte-Real
CIÊNCIA, de Rui Martins

GOLPE D'ASA

Agustina Bessa-Luís, O FANTASMA QUE ANDA NO MEU JARDIM

PRÉ-PUBLICAÇÃO

António Telmo, A VERDADE DO AMOR
Paulo Borges, A CADA INSTANTE ESTAMOS A TEMPO DE NUNCA HAVER NASCIDO

DIRECÇÃO: Paulo Borges, Celeste Natário e Renato Epifânio
EDITOR: Alexandre Gabriel/ Zéfiro



É a justiça, estúpido! (ou o estado a que chegou)

A papelaria do meu bairro, onde abasteço o vicio; de fumo e jornais, foi assaltada. Não a papelaria, mas a caixa do multibanco que dá para a rua. Perdão! Também não foi a caixa de multibanco que dá para a rua, mas o segurança que procedia à reposição das faltas, na caixa do multibanco que dá para a rua.

Tudo indica, que esperaram a carrinha de valores chegar e o segurança entrar na papelaria para actuar. Fizeram-no com rapidez e argumentário suficiente. Quatro homens, encarapuçados, surgiram da rua traseira e forçando a porta da papelaria (tinha sido fechada – julgo serem normas de segurança), roubaram todo o dinheiro destinado à recarga da caixa. Conta um vizinho, com pungente afectividade, que o Sr. Manel dos frangos, correndo o risco de um cardiovascular, ainda largou a arte no intuito de socorrer a vizinha de comércio fronteiro, mas alguém avisado lhe gritou que parasse, informando que os meliantes estavam armados. Perante informação de tal monta e privados dos legítimos direitos de inscreverem qualquer acto contra a actividade ilícita que testemunhavam, ninguém mais ousou qualquer atitude para além da normal e cuidada espionagem entre portas.

Soubemos poucos dias depois, que o Grupo de Operações Especiais da Policia de Segurança Pública, fazendo tábua rasa da nova Reforma Penal, que proíbe a medida de coacção preventiva a criminosos puníveis com penas inferiores a cinco anos, tinha interferido com o livre exercício de actividade daqueles pacatos cidadãos. Descobriu-os, e no decorrer da acção capturou três, tendo o quarto, encontrado outro caminho ao despenhar-se de um andaime sem as necessárias asas.
Sejamos directos: um elemento, o Osvaldo, que também responde pelo nome de ‘Patusca’ e tem a digna profissão de barbeiro, é gente com historial de assaltos de carrinhas de valores à mão armada (sete, ao que consta) com outro gang que baleou um policia, em Novembro passado, quando atacaram o Finibanco de Moscavide.

Foram apresentados quinta feira da semana passada ao Tribunal de Sintra e já estão cá fora.
Chegado aqui, um forte pulsar tentava-me a falar do ministro da justiça e da sua reforma penal. Mas não, vamos lá sem bússola nem catavento que já se levanta a neblina.

Não consta se o juiz lhes terá dado algum coçóide dialéctico ou beliscões nos fundilhos, mas consta, que a confirmação de serem gente de trabalho, com emprego e por isso capacidade produtiva, bastou para serem elevados a cidadãos integrados na sociedade e mandados em paz -di-lo a vizinhança e confirma-o a edição on-line do Correio da Manhã de dia 14.

Dito isto, espero que os maquiavélicos agentes da PSP, que procederam às detenções com inequívoca e irrefutável falta de formação profissional, não venham a ser acusados de discriminação xenófoba ou racista, para com cidadãos que caíram, por mera casualidade, no isco apetecível de uma caixa multibanco. Também, não caia o leitor na tentação, de ver neste post um manifesto convite à criminalidade; o juiz, ao considerar aqueles cidadãos integrados na sociedade, pode muito bem, estar a referir-se àquela outra parte de que todos ouvimos falar e com a qual não temos intimidade.

Mesmo com pouca legitimidade linguístico-literária, cá vão mais algumas considerações sobre o Acordo Ortográfico.

Na língua, nada é fixo mas fixado de tempos a tempos por uma questão prática de comunicação e, sabemos bem, que uma das coisas belas da comunicação, está precisamente no rompimento das regras.
Esta discussão do Acordo Ortográfico, que vai da estagnação ao progresso lento e concertado, leva-me a reflectir sobre o mal-estar dos defensores do “Não” em verem aprovado o actual Acordo, e, escrevo mal-estar e não mal estar, porque a ortografia desta palavra decorre de uma regra publicada em decreto-lei, portanto com o alcance jurídico, que permite aos defensores do “Não” exigir o seu cumprimento para um caso e em simultâneo o incumprimento para o outro, aliás, as palavras compostas com recurso ao hífen, são uma confusão e dão-nos alguns desgostos, chegando a ponto de as encontrarmos grafadas com e sem hífen em dicionários de referência. Correntemente, há quem use e quem não use o hífen, seja por erro, por ordem prática ou preferência dos que acham que as normas são convencionais e não mandam na Língua.

Um bom exemplo, para além das mutações populistas, são alguns escritores que, perante a capacidade expressiva de um hífen poder cumprir funções semânticas, literárias ou estilísticas, se estão nas tintas para o padrão de orientação geral e desenvolvem novas formas, que, a par de outras, principalmente de sintaxe -mais comum do que de ortografia, leva alguns defensores do “Não” a dizerem que é dos escritores a honra de fazer norma, o que, a meu ver, e a par dos falantes que somos todos -porque não se trata de falar, mas de escrever com correspondência à fala, empurram a língua devido à sua padronização para a norma e daí a necessidade de tocar a reunir de tempos a tempos. Ora, como para além da norma, há quem proponha a norma, posteriormente, dicionaristas, gramáticos e linguistas, decidem ser esta ou aquela grafia, esta ou aquela construção sintáctica. Daqui se pode inferir, que ninguém em particular faz a norma, aparecendo esta, feita por toda a comunidade de forma retrospectiva e pelo reconhecimento oficial de um uso generalizado, quando não é por necessidade semântica.
Temos assim, que a norma é necessária para não nos apoiar-mos em balbúrdias e evitarmos afastamentos extremos que dificultariam a comunicação e, da mesma forma e pelos mesmos motivos, esta deve acompanhar os tempos.

A norma que nos regula data de 1945, e, também por isso, muitos defensores do “Não”, não são contrários a acordos ortográficos, sabem que a língua é como um organismo vivo que vai perdendo umas células, os arcaísmos por exemplo, e ganhando outras como os neologismos, são sim contra este Acordo, pela simples razão de o pensarem de forma diferente e independente de dizerem ‘stande’ ou escreverem ‘fevras’, outros, preferem a prosa redonda da integridade da Língua e divagações sobre soberania, outros preferiam uma poda como a de décadas atrás quando se limparam umas quantas palavras e outros ainda, acusam o Acordo de pertença do eixo Lisboa-Coimbra. Todos estes argumentos correm em paralelo e não importa que uns tentem falar mais alto que outros, o problema é que, os acordos não são ciências exactas, fazem-se pela urgência de resolver problemas de desfasamento correndo sempre o risco de provocar reacções contrárias, mas isso será sempre assim e esta discussão dura há 20 anos. É tempo, portanto, de aplicarmos este acordo por forma a controlarmos a dispersão que já se verifica (erva e desumano sem a consoante muda ‘h’, por ex. que estão consagradas no uso faz anos sem ter sido levada em conta a etimologia) e daqui a algum tempo recomeçar de novo.

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O MIL: Movimento Internacional Lusófono, decidiu promover uma Petição à Assembleia da República, em prol de uma mais rápida implementação do Acordo Ortográfico. A Petição, está aqui: http://www.gopetition.com/online/17740.html, se concorda, pedimos-lhe que a subscreva e também que a publicite.

Nota de apresentação: O MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO , é um movimento cultural e cívico recentemente criado, em associação com a NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI, projecto que conta já com cerca de meio milhar de adesões, de todos os países lusófonos.

O Ciclo Menstrual da Noite


A poeta, Alice Macedo Campos, do incontornável Blog “Acta Para Violino”, lança no próximo dia 10, pelas 16 horas, no Auditório da Casa Museu Abel Salazar, em São Mamede de Infesta ao Porto, o seu primeiro livro de poesia.
A Alice, é uma poeta que faz tempo me habituei a ler no seu blogue, onde, encontrei, uma escrita extremamente forte, de excelente qualidade, com imagens e palavras de refinado metaforismo, únicas.

Mas, melhor do que alguma vez eu diria, ouçamos o que Isabel Mendes Ferreira, diz sobre a autora de “o ciclo menstrual da noite”:

como uma vertigem. antiga. de um eros incorrupto. como toda a pele de um texto invariavelmente emocional ou como um texto arrepiado de esquemas rítmicos ao sabor da pele. assim a poética de Alice ao espelho dos sentimentos. Nada a detém. nada sobra. nada a desnorteia em cima das metáforas cruelmente femininas no que de mais loba a mulher tem e é. Uma escrita de sangue e carne e leite e seios e picos e renúncia e entrega e vibráteis gritos que diria virem de dentro da noite. irregular destino de quem se atira assim para uma espécie de poço cintilante. sem limites. um pathos quase criptogâmico. um parto oculto que desvenda o rigoroso carpelo de um discurso aparentemente de renúncia.
é uma mulher. claro. quem assim majestosamente se veste de nudez. muitas vezes quase numa iteração obsessiva.tumescentes as palavras ganham asas.passam a borboletas.
escamam os conceitos tidos como só do irreal. aproximam-se do fogo. querem-se de alimento generoso e generosamente ficam a boiar. como gritos. pessoalíssimas teias que anunciam o enorme voo de Alice.Campos. fora.dos.espelhos.regulares.dentro.de.um.prognóstico.amadurecido. Este livro de anunciação chega como voragem. e fica como Certeza

Reviver e pensar o Maio de 68, 40 anos depois


Será que resta alguma coisa, do tempo dos que se revoltaram contra o stato quo do poder estabelecido?

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Como nota e tentando sacar metade do ridículo a um post que pouco diz, uma cândida curiosidade que pode parecer uma piadola sem graça.

Começa a fervilhar uma polémica, de pouca arte diga-se, entre ingleses e espanhóis, que remonta a 1968. Tem a ver com um documentário da Jornalista, Montse Fernández, sobre o impacto que o Maio de 68 teve em Espanha e que será exibido na próxima sexta-feira, no canal, La Sexta.
Em Inglaterra, e sem aquelas entrelinhas que até apertam o coração, com base numa curta declaração de José María Iñigo, que ao tempo era apresentador da TVE, e afirma no tal documentário que, à Espanha, “interessava muito vencer o Festival da Eurovisão para ter algum nome” e que, sob ordens de Franco, responsáveis da TVE e de editoras espanholas, teriam viajado pela Europa com o fito de comprometer o voto dos responsáveis, prometendo-lhes a compra de séries e edição de discos de vários cantores, que nunca viriam a ser emitidos ou distribuídos, quando, os ingleses, nesse ano depositavam grandes esperanças no Cliff Richard e na canção Congratulations para vencer o festival. O Guardian e o The Sun, dando mostras de uma inexcedível sede de polémica e reagindo à chincada da respectiva horta, já se levantam em acusações a Franco e aos espanhóis, por terem comprado a vitória da cantora Massiel, nomeando, o The Sun, directamente o alvo e sem grande refinamento técnico, dizendo que, o “líder fascista espanhol, General Franco, amanhou o voto”.

Embora este fait-diver seja lamentável é, de certo modo, divertido, porque se pressupõe que para os espanhóis, nada disto é imoral, quando muito, um pequeno incómodo. É por estas e outras (bem piores, bem piores, bem piores) que o povo português é sábio no dizer: “De Espanha, nem bons ventos nem bons casamentos”. E nós sabemos do que falamos. Generalizo, claro, conheço espanhóis, que nada têem de espanhóis.


Bem, vou continuar o que estava a fazer. Estou a ler como é que o Péricles conseguiu manter-se tanto tempo no poder, e, por causa disso, já ontem não vi a apresentação da candidatura do Sr. doutor Pedro Santana Lopes, à liderança do PPD/PSD e, talvez por isso, gostei muito.

Goor - A Crónica de Feaglar II.

Desafiava-me o Pedro Ventura, aqui a atrasado no blog “Correio do Fantástico”, que definisse o que era afinal a literatura Fantástica. Depois de algumas considerações de género, dando os exemplos de Drácula de Bram Stoker, Frankenstein de Mary Shelley, os neofantásticos Kafka, Borges e Cortázar, os clássicos Maupassant, Hoffmann, Poe e Gogol, respondi-lhe, que era toda a literatura construída através de sistemas simbólicos, ambíguos e estéticos, com intencional transgressão dos preceitos racionais vigentes, equacionando os domínios do natural e do sobrenatural, do estranho e do maravilhoso, do tempo cronológico e do tempo subjectivo, que tentava contornar o incontornável real.
Posto isto, e porque no mesmo tempo lia o seu segundo livro a solo, (é co-autor com Teresa Branco, do “Astrologia, o Trabalho e o seu Destino”, da Livros Novalis), permitam-me os amabilíssimos leitores deste post, que diga antes de mais: O romance/aventura de Pedro Ventura, Goor - A Crónica de Feaglar II, da Papiro Editora, que podem encomendar aqui, é arte épica da Literatura Fantástica em todo o seu esplendor e, exemplo, de como em Portugal já se escreve a sério neste género literário.

Quando li o Goor - A Crónica de Feaglar I (Goor I), de forma prudente, tive oportunidade de me pronunciar aqui, quanto ao processo narratológico, planificação e caracterização das personagens de um épico romance/aventura, sem os habituais dragões e elfos que povoam a memória colectiva, mas com a conceptualização do fantástico de uma cultura laica e racionalista. Agora, no Goor - A Crónica de Feaglar II (Goor II), e embora não o aconselhe, pode ser lido sem passar pelo Goor I, o Pedro, volta a surpreender, conseguindo a façanha de escrever uma segunda parte, melhor que a primeira. Coisa, diga-se, não é habitual.

Os Goor, I e II, giram à volta de uma demanda. Os seus personagens, esteticamente humanos com roupagem do lugar e do tempo, são instâncias metafóricas densamente significantes, com fraquezas e erros de qualquer um, e vão-nos envolvendo no entrelaçado de histórias bem imaginadas pela criatividade do Pedro, que, chega a ser poética e não raras vezes filosófica, sublinhando a ideia de uma intencionalidade da consciência que emerge de um passado, mas não fica no passado.
Logo nas primeiras páginas, sentimos que o escritor cresceu com as personagens. A elaboração dos diálogos e a narração, deram o salto para a mensagem da dimensão da alma humana que é singular a cada um de nós: não perde de vista a condição de sermos seres como os outros e que a felicidade (estética) depende do máximo de felicidade (ética), levando-nos a um mundo em que nada é absoluto ou imutável, que é por excelência o mundo dos humanos, gente de sentimentos variados que podem hoje ser bons e amanhã o contrário, na medida em que, significa, o ser melhor num cosmos (mãe natureza) comum, e o abraçar as singularidades para promover o ideal imaginado, com motivações e angústias que vão sendo desvendadas com novas, surpreendentes e bem medidas revelações, terminando no encontro da paz interior quando, Feaglar, sobe a falésia e dança com o vento.

Dos vários e “ricos” personagens, cativam-nos, principalmente, a cintilante guerreira aurabrana, Calédra, uma encantadora e fantástica mulher que imagino de beleza imoral, imanente a ela mesma e transcendente das demais que, com Feaglar, o rei do reino Dhorian, é a ordem da autenticidade e suporte de toda esta trama.

Uma coisa é certa, quando acabamos de ler, Goor - A Crónica de Feaglar II, fica-nos a mágoa de não o continuarmos a ler.

Combustíveis e preços nebulosos

O paralelismo do preço dos combustíveis em Portugal, ultrapassa tudo o que se disse aqui a atrasado. Este cartelismo, sugeneris, que bem investigadinho nos EU podia dar 30 anitos de reclusão à canalha: a GALP, detentora de 40 por cento dos postos de abastecimento nacionais, por culpa da modorra que tomou conta de Portugal, aumenta o preço e os outros vão atrás, mandando às malvas a tão esperada e anunciada liberalização que, nunca passou do papel e deu o resultado que agora está à vista: só este ano, a ocorrência de catorze subidas do preço dos combustíveis.
Sua Excelência, o ministro da economia, num dia em que toda a imprensa barafustou sobre as razões destes aumentos, a reboque do já anunciado pela Autoridade da Concorrência, veio reforçar a urgência da análise na formação do preço de combustíveis em Portugal, de forma a garantir que o preço traduza adequadamente os custos da produção. Coisa, diga-se sem qualquer maleficência, a Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis, exige há algum tempo, e que, parece, passou leve, levemente como a neve do Augusto Gil.
Bem… tudo isto são pontos de vista a partir de opiniões e cada um forma a sua, segundo o ponto de vista mais imediato. Daí os “conflitos” de interpretação com que “temos” de viver.

Olympic Spirit


Dizer que, foi finalmente identificado, o bando de monges budistas enlouquecidos, certamente, é uma falácia.
Mas…não eram os monges que diziam, que estando detidos, não poderiam estar presentes nas manifestações?…

Hoje, no 116º dia do ano, no calendário gregoriano, festejamos a Revolução dos Cravos.

No dia 25 de Abril de 1974, conhecido por “Dia da Liberdade”, num golpe militar sem grande resistência das forças leais ao governo do Estado Novo, oficiais intermédios da hierarquia militar, na sua maioria capitães ex. combatentes da guerra colonial, derrubaram o regime político nacionalista, corporizado no golpe de 28 de Maio de 1926, comandado pelo General Gomes da Costa, que pôs termo à recém-nascida e, por isso, frágil Democracia portuguesa e ao descrédito da ingovernável Primeira República Portuguesa, que em 16 anos e debaixo de frenética intriga política, golpes e contragolpes, contabilizava sete Parlamentos, oito presidentes da República e cerca de cinquenta governos.

Tudo começa em Bissau -no contexto geral de pobreza e miséria de uma sociedade atávica mergulhada no obscurantismo, com a primeira reunião de capitães a 21 de Agosto de 1973. A 9 de Setembro, em Alcáçovas, é constituído o Movimento das Forças Armadas, a 5 de Março de 1974, é aprovado o documento “Os Militares, as Forças Armadas e a Nação” que é posto a circular clandestinamente, a 24 de Março, é decidido derrubar o governo pela força e, no dia 24 de Abril, no quartel da Pontinha em Lisboa, é instalado secretamente o posto de comando do Movimento das Forças Armadas, sob as ordens de Otelo Saraiva de Carvalho.
Nesse mesmo dia, às 22:55hs, dos Emissores Associados de Lisboa, é dado o primeiro sinal combinado com a canção “E depois do adeus” do Paulo Carvalho -emitido por João Paulo Dinis, que fizera tropa em Bissau sob as ordens de Otelo e que, desencadeia a primeira fase do golpe. Às 0:20hs do dia 25, na Rádio Renascença, o jornalista e poeta moçambicano Leite de Vasconcelos, emite o segundo sinal com a canção “Grândola Vila Morena” do José Afonso, que confirmava o golpe e iniciava a segunda fase do que viria a tornar-se uma autêntica Revolução social e mental, de profundo e seminal significado histórico e, nos conduziria de forma relativamente serena e pacifica, ao hoje, em que comemoramos o 34º aniversário da Democracia, com um Estado de Direito Democrático estável.

Nota: Confesso, a minha dificuldade, em descrever tão grande e significante dia e seus antecedentes de forma telegráfica, mas a preferência dietética do fast reading, foi aqui, levada em conta.

ACONTECIMENTO CULTURAL DO ANO



Faltam 27 dias para o lançamento da NOVA ÁGUIA. Para o primeiro deles: que se realizará na Fundação José Rodrigues, no Porto, dia 19 de Maio, às 21h30.

Temos já mais uma dezena de outros lançamentos agendados por todo o país. Até ao momento:

19 de Maio - 21h30: Fundação José Rodrigues (Porto)
28 de Maio - 21h30: Atrium Chaby (Mem Martins)
31 de Maio - 17h00: Palácio Pombal (Lisboa)
31 de Maio - 20h00: Biblioteca Municipal de Sintra
3 de Junho - 15h00: Universidade de Évora
6 de Junho - 21h30: Galeria Matos-Ferreira (Lisboa)
7 de Junho - 16h00: Livraria Livro do Dia (Torres Vedras)
7 de Junho - 21h30: Esplanada da Casa do Bocage (Setúbal)
11 de Junho - 15h00: Universidade de Aveiro
11 de Junho - 17h00: Casa Municipal da Cultura (Coimbra)
14 de Junho - 18h30: Livraria Arquivo (Leiria)
15 de Junho - 16h00: Vila da Batalha
18 de Junho - 18h00: Universidade do Algarve (Faro)
20 de Junho - 18h00: Amarante



Associação Marânus

NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

SEDE NORTE: Associação Marânus; SEDE SUL: Associação Agostinho da Silva; SEDE DE REDACÇÃO: Associação Agostinho da Silva (Rua do Jasmim, 11, 2º – 1200-228 Lisboa; E-Mail: AgostinhodaSilva@mail.pt)

A NOVA ÁGUIA está vinculada a três entidades : Associação Marânus/ Teixeira de Pascoes, Associação Agostinho da Silva e MIL : Movimento Internacional Lusófono. Inspirando-se na visão de Portugal e do Mundo de Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, a NOVA ÁGUIA assume-se como um órgão plural.



Sporting 5 – 3 Benfica, em 90 minutos inesquecíveis.

Alvalade ao rubro num “derby” fantástico que, foi só o melhor dos últimos anos.

A catástrofe rondava Alvalade e todos a pressentiam, ao intervalo o Sporting perdia por dois a zero. Recomeça o jogo e o Sporting mostra que vem com outra garra, mais arrumado devido à rectificação de algumas posições e vontade de acabar com aquele purgatório mas, ainda assim, faltava qualquer coisa. Finalmente, Paulo Bento, olha para o relógio e confirma que restam 28 minutos para virar um jogo onde deu 2 golos de avanço ao adversário e, aos 62 minutos, decide que é já tempo de jogar com 11. Troca o ausente Romagnoli por Derlei, e agora com cinco avançados, arranca para uma extraordinária exibição que acaba com o que restava do Benfica, que até tinha sido, por culpa do velhinho Rui Costa, Di Maria e Rodriguez, uma equipa de excelente caudal ofensivo.
João Moutinho, o carácter, o capitão e verdadeiro maestro de Alvalade, com a sua batuta supermotivava e embalava o Sporting, para uma grande exibição e um resultado volumoso, que as torres Luisão, Katsouranis e Quim, adiaram até aos 68 minutos quando, definitivamente, o canavial começou a abanar.

Mas gritar 5 golos e viver a grande emoção de ver o Leão, qual Fénix, renascer das próprias cinzas, deixou-me rouco, por isso, dou voz ao Luís Sobral, do Mais Futebol, que só pode ser um gajo muito porreiro.

“Vukcevic apareceu sobre a direita, deu a volta ao romeno e cruzou para o golo de Yannick. Faltavam 22 minutos, o «derby» estava emocionante.
O Sporting empolgava. Era uma torrente de futebol de ataque. Uma, duas, três oportunidades, Quim a salvar o Benfica do empate. Ninguém respirava. O melhor jogo do ano? Sim, sim, mil vezes sim!

Derlei era agora o companheiro de Liedson, sete meses depois. Yannick jogava nas costas de ambos. Izmailov estava em grande, João Moutinho parecia segurar sozinho o meio-campo e finalmente havia Vukcevic. «Até morrer!», gritavam os sportinguistas. E parecia. Insistência do capitão pela direita, cruzamento e Liedson de primeira para o 2-2!

O que faltava ao Sporting? Ganhar 3-2 com um golo de Derlei. Assim foi. Os «leões» viviam uma daquelas noites que os avós contarão daqui a uns anos aos netos. Cruzamento de Izmailov e entrada do «11» para a baliza. Festa? Cedo de mais. A bola chegou à grande área de Rui Patrício, sobrou para Rodriguez e 3-3. Não havia táctica, apenas alma. Não havia sinal de crise, apenas o desejo de heroísmo. Ninguém mandava no melhor jogo da temporada, o mais espantoso «derby» desde os 7-1 e 6-3. Era como se as duas equipas quisessem compensar os adeptos por tanta amargura. Corriam, corriam. Podiam tudo. Yannick Djaló pegou na bola, foi direito a Luisão. Tinha duas opções de passe. Claro que seguiu em frente. Claro que rematou. Claro que foi golo. 4-3. Claro que ainda houve mais um. 5-3, agora Vukcevic. O Sporting derrubou o Benfica naquele que começou por ser o «derby» das crises e terminou com uma das mais brilhantes páginas da história centenária dos dois clubes.”

Para lembrar hoje, amanhã e sempre:


Local: Estádio José de Alvalade (Assistência: 37 224)

Árbitro: Jorge Sousa (Porto)

SPORTING: Rui Patrício, Abel, Tonel, Miguel Veloso, Leandro Grimi, Adrien Silva (Izmailov 34m), João Moutinho, Vukcevic, Romagnoli (Derlei 62m), Yannick Djaló (Gladstone 86m), Liedson.

(Suplentes: Tiago, Gladstone, Pedro Silva, Pereirinha, Izmailov, Derlei e Tiuí).

Treinador: Paulo Bento

BENFICA: Quim, Nélson, Luisão, Katsouranis, Léo, Petit (Cardozo 85m), Maxi Pereira, Rui Costa, Cristian Rodriguez, Di María (Sepsi 65m), Nuno Gomes.

(Suplentes: Butt, Sepsi, Edcarlos, Luís Filipe, Binya, Mantorras e Cardozo).

Treinador: Fernando Chalana

Marcador: 0-1 Rui Costa (19m) 0-2 Nuno Gomes (30m) 1-2 Yannick Djaló (67m) 2-2 Liedson (76m), 3-2 Derlei (79m) 3-3, Cristian Rodriguez (81m), 4-3 Yannick Djaló (84m) 5-3 Vukcevic (90m+2m)