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Rentrée com "SOL".

Após uma incessante procura pelas bancas, na nona, e já na margem sul para onde me desloquei no fim-de-semana, lá consegui o novo semanário “SOL”.

Sentado no Jardim, depois de ter praticamente engolido um bacalhau “À Brás”, rematado com um cremoso requeijão de Seia para aconchegar e mesmo antes do café, entreguei-me ansioso e expectante à leitura.

A primeira página pareceu dar-me razão, quando no post anterior me referi ao upgrade às expectativas criadas, devido à noticia da casa apreendida a Isaltino, mas gostei do “Manifesto de Princípios”, pelo qual o “SOL” pretende caminhar.

Na segunda, encontro uma entrevista a Maria Filomena Mónica que li em diagonal e sem interesse, pois a pagina três estava logo ali e os olhos corriam para ela. Era a coluna do Director José António Saraiva, com o sugestivo titulo “Política a Sério” que começou desde logo a alterar o meu pensamento sobre este novo semanário.
Depois de lido o artigo, que se debruçava sobre o caso das maternidades, tive de concluir o meu completo e incondicional acordo com o que li, porque reforça o meu pensamento sobre o assunto, já expresso por mim aqui e aqui e ainda lhe dá umas achegas.

Até à página sete onde ficamos informados de todo o processo que levou à criação do “SOL”, nada a merecer a minha especial atenção, mas na página oito, li o “Estatuto Editorial” ao qual atribuí numa escala de 1 a 10, a nota máxima, e, num piscar de olhos, já estou na página vinte e sete, onde Catarina Guerreiro nos informa, que o iconomicismo do governo avança agora para o fecho das urgências em catorze hospitais e o redimensionamento da maioria dos que foram obrigados a fechar as maternidades, ficando alguns deles, só com os serviços de urgência básica.
O que é, mais uma grande burrada deste governo e mais um bilhete só de ida, para a desertificação do interior.

Mais um pressing, passando por artigos de médio interesse como por exemplo o “Bye, Bye, Blair” de Carlos Ferreira Madeira. O cartoon, bem a propósito desta edição, do arguto Augusto Cid, está mesmo ao lado da coluna do Miguel Portas que é mais do mesmo a que já me habituei. As “Conversas na Prisão” da página central, a continuarem, parecem-me interessantes e confirmo na pagina sessenta e quatro, que de facto, a coluna da Margarida Rebelo Pinto é sobre sexo, mas também, que dali não vem nada de novo; refere coisas que já a ouvi referir na televisão.

Gostei da coluna do António Pedro Vasconcelos “Das Duas, Uma”, sobre o Ministério da Cultura, gostei da forma como os livros são apresentados e por fim, um olhar atento sobre o “Blog” em papel e em forma de diário de Marcelo Rebelo de Sousa, que leva nota 6 num máximo de 10, dando 7 a António Pires de Lima, que não lhe chamando blog, tem também essa forma e que se pode ler, no caderno “Confidencial”.

Quanto à revista “Tabu” que acompanha o “SOL” e ainda não li, tenho a informação de um sobrinho meu que a leu e comparando com a “Única” do Expresso, diz serem equivalentes.

Conclusão: Quem pretende um semanário de leitura rápida e fácil devido ao tipo de letra usado e artigos onde a síntese é palavra de ordem, quem pretende um semanário (talvez um pouco light) como a Maite refere na sua apreciação em comentário ao post anterior, mas transversal e bem escrito, com artigos para todos os gostos, tem aqui o seu semanário, com um papel idêntico ao do Expresso mas de secagem inferior e com um tamanho mais manuseável.
Não encontrará artigos pormenorizados com todos os “como, quando e porquês”, a que, o Expresso nos habituou, não encontrará a coluna do Miguel Sousa Tavares, do Fernando Madrinha ou do Paulo Nogueira, que continuam no Expresso, nem o excelente caderno “Economia”, mas isso…

SOL = €2,00
Expresso = €2,80

Coisas...

Estava para escrever sobre esse grande Socialista e Presidente da Bolívia Evo Morales, que fez aprovar legislação que possibilita ao regime impor tudo o que quiser, ou então, sobre o Chávez da Venezuela, que se prepara, para se declarar Presidente Vitalício, sem que os amigos do BE cá do burgo se pronunciem sobre o assunto, mas como vim de férias há pouco, ainda não estou preparado para me enterrar nesses cadilhos políticos.

Assim, estive a assistir à entrevista de Judite de Sousa a José António Saraiva ex. Director do Expresso e novo Director do Jornal “Sol”, que sai para as bancas este sábado. Em determinada altura da entrevista, lembrei-me de Édipo ao fugir da sua terra natal para não matar o pai como o oráculo previra e, sabem todos, que ele acaba por matar um viajante numa encruzilhada, vindo mais tarde a acreditar que tinha morto o próprio pai.

Neste caso, José António Saraiva, diz que não quer matar o pai, mas sim que o pai quer matar o filho, parece-me, que as armas usadas para tal sacrilégio, serão uns tais de DVDs, que eles “O Expresso” decidiram oferecer aos leitores e que José António Saraiva repudia, garantindo desde já, que “o seu jornal” não entrará por aí, mas vamos percebendo com o decorrer da entrevista, que entrará por outros becos e ruelas, para que daqui a um máximo de seis meses, seja o líder do mercado, ou seja: Este novo jornal e pelo que percebi; fará um upgrade das expectativas criadas para os padrões tablóides, mas com a legitimação cultural dos seus colunistas, onde se contam os brilhantes; Paulo Portas e Marcelo Rebelo de Sousa entre outros, como por exemplo a Margarida Rebelo Pinto que terá uma coluna cor-de-rosa (se bem percebi, de sexo).

Bem... o Sr. José António Saraiva não será o narcisista que muitos dizem ser, mas não consegue dizer à Judite de Sousa, que não é o melhor analista político que este país tem e continuará a assinar a sua coluna na página 3, tal como fazia no Expresso.

Como a primeira tiragem, será só de 130.000 exemplares e como me levanto tarde ao sábado, espero conseguir um.
Só para tirar dúvidas claro, é que estou convencido pelo que ouvi, que este novo jornal “Sol” será um Expresso-Light, mais ainda, do que já é o actual.

Pois então... não é disto que o meu povo gosta? Veremos...

Timor-Leste

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS
Folha de São Paulo - 4Julho2006

A crise política em Timor, para além de ter colhido de surpresa a maior parte dos observadores, provoca algumas perplexidades e exige, por isso, uma análise menos trivial do que aquela que tem vindo a ser veiculada pela comunicação social internacional. Como é que um país, que ainda no final do ano passado teve eleições municipais, consideradas por todos os observadores internacionais como livres, pacíficas e justas, pode estar mergulhado numa crise de governabilidade? Como é que um país, que há três meses foi objecto de um elogioso relatório do Banco Mundial, que considerou um êxito a política económica do Governo, pode agora ser visto por alguns como um Estado falhado?

À medida que se aprofunda a crise em Timor Leste, os factores que a provocaram vão-se tornando mais evidentes. A interferência da Austrália na fabricação da crise está agora bem documentada e vem desde há vários anos. Documentos de política estratégica australiana de 2002 revelam a importância de Timor Leste para a consolidação da posição regional da Austrália e a determinação deste país em salvaguardar a todo o custo os seus interesses. Os interesses são económicos (as reservas de petróleo e gás natural estão calculadas em trinta mil milhões de dólares) e geo-militares (controlar rotas marítimas de águas profundas e travar a emergência do rival regional: a China). Desde o início da sua governação, o primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, um político lúcido, nacionalista mas não populista, centrou a sua política na defesa dos interesses de Timor, assumindo que eles não coincidiam necessariamente com os da Austrália. Isso ficou claro desde logo nas negociações sobre a partilha dos recursos do petróleo em que Alkatiri lutou por uma maior autonomia de Timor e uma mais equitativa partilha dos benefícios. O petróleo e o gás natural têm sido a desgraça dos países pobres (que o digam a Bolívia, o Iraque, a Nigéria ou Angola).

E o David timorense ousou resistir ao Golias australiano, subindo de 20% para 50% a parte que caberia a Timor dos rendimentos dos recursos naturais existentes, procurando transformar e comercializar o gás natural a partir de Timor e não da Austrália, concedendo direitos de exploração a uma empresa chinesa nos campos de petróleo e gás sob o controlo de Dili.
Por outro lado, Alkatiri resistiu às tácticas intimidatórias e ao unilateralismo que os australianos parecem ter aprendido em tempos recentes dos seus amigos norte-americanos. O Pacífico do Sul é hoje para a Austrália o que a América Latina tem sido para os EUA há quase duzentos anos. Ousou diversificar as suas relações internacionais, conferindo um lugar especial às relações com Portugal, o que foi considerado um acto hostil por parte da Austrália, e incluindo nelas o Brasil, Cuba, Malásia e China.

Por tudo isto, Alkatiri tornou-se um alvo a abater. O facto de se tratar de um governante legitimamente eleito fez com que tal não fosse possível sem destruir a jovem democracia timorense. É isso que está em curso.

Uma interferência externa nunca tem êxito sem aliados internos que ampliem o descontentamento e fomentem a desordem. Há uma pequena elite descontente, quiçá ressentida por não lhe ter sido dado acesso aos fundos do petróleo. Há a Igreja Católica que, depois de ter tido um papel meritório na luta pela independência, não hesitou em pôr os seus interesses acima dos interesses da jovem democracia timorense ao provocar a desestabilização política com as vigílias de 2005 apenas porque o governo decidiu tornar facultativo o ensino da religião nas escolas.
Toleram mal um primeiro-ministro muçulmano, mesmo laico e muito moderado, porque o ecumenismo é só para celebrar nas encíclicas.

E há, obviamente, Ramos Horta, Prémio Nobel da Paz, um político de ambições desmedidas, totalmente alinhado com a Austrália e os EUA e que, por essa razão, sabe não ter hoje o apoio do resto da região para a sua candidatura a Secretário-Geral da ONU. Foi ele o responsável pela passividade chocante da CPLP (Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa) nesta crise. A tragédia de Ramos Horta é que nunca será um governante eleito pelo povo, pelos menos enquanto não afastar totalmente Mari Alkatiri. Para isso, é preciso transformar o conflito político num conflito jurídico, convertendo eventuais erros políticos em crimes e contar com o zelo de um Procurador-Geral para produzir a acusação. Daí que as organizações de direitos humanos, que tão alto ergueram a voz em defesa da democracia de Timor, tenham agora uma missão muito concreta a cumprir: conseguir bons advogados para Mari Alkatiri e financiar as despesas com a sua defesa.

E que dizer de Xanana Gusmão? Foi um bom guerrilheiro e é um mau presidente. Cada século não produz mais que um Nelson Mandela. Ao ameaçar renunciar, criou um cenário de golpe de Estado constitucional, um atentado directo à democracia por que tanto lutou. Um homem doente e mal aconselhado, corre o risco de hipotecar o crédito que ainda tem junto do povo para abrir caminho a um processo que acabará por destruí-lo.

Timor não é o Haiti dos australianos, mas, se o vier a ser, a culpa não será dos timorenses. Uma coisa parece certa, Timor é a primeira vítima da nova guerra-fria, apenas emergente, entre os EUA e a China. O sofrimento vai continuar.
O passado de Kay Rala Xanana Gusmão não o torna impoluto e não me pode impedir de o criticar pelo presente, e, por isso faço-o, convicto de que mal aconselhado está a levar Timor-Leste para o abismo.

"Falhámos em garantir a vossa estabilidade, mas com a vossa esperteza ganhámos esta guerra", afirmou Xanana Gusmão, perante o entusiasmo dos manifestantes, que exigem a demissão do primeiro-ministro, Mari Alkatiri.
Fonte - LUSA.

Foi assim de forma burlesca que Xanana se dirigiu aos manifestantes, aliás, todo o discurso começando pelas pessoas presentes no improvisado palco, foi burlesco e provinciano, mas o pior é que foi divisionista e de desrespeito pela constituição e poderes instituídos, sendo a manifestação em si, uma provocação à FRETILIN, para que esta tenha de alguma forma, uma reacção que proporcione a Xanana os motivos para a constituição de um Governo de iniciativa presidencial, tão do agrado dos australianos que já estão a construir uma base para aquartelar 3000 homens nos próximos dois anos, sem que o Governo Timorense o tenha autorizado.

De que forma podemos entender, que os desertores tenham passado a uma Frente Nacional para a Justiça e Paz (FNJP), encerrando simbolicamente o Parlamento Nacional e tomando conta da cidade com o argumento; “Se o Parlamento representa o povo, então o povo decide fechá-lo” com o sorriso e as palmadinhas cúmplices de Xanana?

Felizmente, a FRETILIN mostra ter quadros bem preparados e, para já, não embarcaram nesta estratégia. Continuam por agora, com a sua passividade a ser o garante, agora o único, da democracia, da constituição e dos poderes instituídos.

Depois disto e tendo em consideração o passado de Xanana, temos de considerar que ele foi longe demais e mesmo a desbocada Ana Gomes, sua amiga pessoal, tenta, tenta, mas tem evidentes dificuldades em defendê-lo.

Mas para uma melhor compreensão do actual estado de coisas em Timor-Leste, transcrevo aqui, uma excelente entrevista de Nicole Guardiola a Ana Pessoa, Ministra de Estado e da Administração Pública de Timor que o Expresso pública.

Acrescento, que esta mulher poderá vir a ser a nova chefe de Governo de Timor-Leste, isto se, o problema de Xanana for mesmo Alkatiri e não a FRETILIN, e, se assim for, o Governo de Timor-Leste ficará muito bem entregue.

Mas isso é o optimismo a falar por mim, porque o que penso, é que a FNJP (leia-se: Testas-de-Ferro dos interesses de Camberra) e Xanana, tudo farão para demitir o Governo e constituir um outro de iniciativa presidencial, com intenção de preparar terreno propicio a eleições antecipadas, não fosse assim e Xanana teria pedido à população para regressar às suas casas, mas não, convém que o estado de sítio que se vive em Díli permaneça, porque lhe convém.


«Há uma estratégia por detrás de tudo isto»

Ana Pessoa, ministra de Estado e da Administração Pública de Timor-Leste e membro do Comité Central da FRELIMO, é uma mulher de convicções fortes e sem papas na língua. Jurista de formação, acha «inacreditável» que o Presidente Xanana Gusmão tenha exigido a demissão do primeiro-ministro Mari Alkatiri numa carta apensa a gravação de uma reportagem de televisão australiana, mas acha que a crise institucional ainda pode resolver-se pela negociação e no respeito da legalidade e das normas constitucionais.

Convicta, como Alkatiri e Lu-Olo (presidente do Parlamento) de que há forças empenhadas em fazer de Timor-Leste «um Estado falhado», que deve ser posto sob tutela pelo menos até às eleições de 2007, veio a Lisboa pedir o apoio da CPLP.

A ONU é acusada de não ter evitado a politização e instrumentalização das Forças Armadas e de Segurança timorense, que estaria na origem da crise institucional actual...

O principal aspecto positivo das intervenções da ONU é a multilateralidade, que acarreta também consequências negativas, mas não se pode, de maneira nenhuma culpar a ONU de tudo o que acontece agora. Para a constituição das forças policiais, a UNTAET teve assessores de 40 nacionalidades diferentes e isto cria necessariamente confusão. Não há um modelo, uma doutrina, uma estratégia clara, o que é grave para a formação de um exército e de polícias num país como Timor-Leste, sem tradições institucionais e com referências negativas, herdadas da ocupação militar estrangeira.

Os critérios de avaliação para o recrutamento de funcionários, polícia, militares, não foram logo um factor de tensão? Há pessoas que foram excluídas porque não falavam português...

É absolutamente falso, aconteceu mesmo o contrário. Quando eu era ministra da Administração Interna do governo de transição, a UNTAET lamentava-se de não encontrar timorenses qualificados para ocupar lugares na administração pública e fui assistir às entrevistas de selecção. Verifiquei que eram feitas em inglês ou em bahasa indonésio. Explicaram-me que o inglês era a língua de trabalho da ONU. Respondi: 'então contratem intérpretes. Não estão a recrutar funcionários para a ONU mas sim para o Estado timorense, cujas línguas oficiais são o tétum e o português. Saber inglês pode ser uma habilitação suplementar, nunca um critério de selecção. A maioria dos timorenses não fala inglês e muitos não dominam português, porque durante a ocupação indonésia falar português era ser conotado com a guerrilha, dava direito a ser preso, torturado, morto. Até hoje, só se exige o tétum e só recentemente começou a exigir-se provas de português. No meu ministério, só aceito documentos em tétum ou em português. Se vierem em inglês ou em bahasa, voltam para trás.

O facto de haver oficiais da polícia oriundos da polícia indonésia não criou problemas?

O recrutamento da Policia Nacional de Timor-Leste (PNTL) foi inteiramente feito pela UNTAET. Incorporaram mais de 100 agentes e oficiais indonésios, alguns dos quais tinham uma folha de serviços muito má, referenciados como torcionários. Foi o que provocou a primeira divisão entre os chamados «nacionalistas» e o grupo dos «autonomistas», ex-agentes da polícia indonésia que foram incorporados na PNTL em nome da reconciliação nacional. Costumava dizer que a policia foi estruturada para se desestruturar na altura da primeira crise. Foi o que aconteceu.

A criação de forças especiais também criou mal-estar e aparece agora relacionada com grupos paramilitares de autodefesa.
Em Janeiro de 2003, milicianos infiltrados através da fronteira com Timor Ocidental atacaram aldeias, mataram populações indefesas, na região de Atsabe. A nossa polícia, que só tinha uns 15 homens na zona armados com pistolas, não foi capaz de reagir. Fizemos intervir os militares das Forças de Defesa e Segurança (FDSTL) e fomos acusados de violações dos direitos humanos.

Foi nesta altura que se decidiu criar a Reserva Especial da polícia, para actuar fora das zonas urbanas, segundo o modelo da «Jungle Police» da Malásia. Os seus membros foram recrutados no seio da PNTL, deviam ter pelo menos seis meses de serviço e nenhum antecedente disciplinar. Receberam um treino mais puxado, tipo rangers, equipamentos adequados e armas automáticas.

Como aparecem armas nas mãos de civis?

Há armas nas mãos de civis porque o comando da polícia falhou. Os paióis foram roubados, há armas em circulação na posse de pessoas que não sabemos ao certo se são civis ou polícias que despiram as fardas. Não creio que entrou clandestinamente mais armamento em Timor. Há muitas especulações que são aproveitadas, sobretudo pelos australianos, para provar que há descontrolo por parte do governo. Está a fazer-se o levantamento das armas existentes e das que faltam ao inventário. As FDSTL fizeram-no imediatamente, porque estava tudo bem organizado. Na policia não.

As FDSTL não têm problemas?

Têm um comando e quando há comando há disciplina, felizmente.

Quem são os grupos armados que o Rogério Lobato admitiu ter autorizado?

Não sei. Só tenho uma certeza: não são da Fretilin. Como disse o Lu-Olo (presidente da Fretilin e do Parlamento), a Fretilin não tem milícias armadas, não é nem nunca foi um partido terrorista como uma certa imprensa quer fazer crer. Também não conheço o Railos, mas recebi uma mensagem dele, no meu telemóvel, a 12 de Junho. No SMS que recebi por engano (era dirigido a Lu-Olo) Railos autoproclamava-se chefe do «Grupo de Salvaguarda Povo e Nação» e dizia, em tétum, que sabia que a Fretilin não distribuiu armas, mas que quem o fez foi Alkatiri. Julgo que estão a tentar dividir a Fretilin para fazer cair o Governo.

Num artigo de opinião, o seu filho, Loro Ramos Horta, acusa Mari Alkatiri e Xanana Gusmão, de serem responsáveis da actual situação. (ver «Os senhores da Guerra» - Expresso, edição de 10.06.2006)

O meu filho ficou furioso e preocupadíssimo com o que nos poderia acontecer, a mim e ao meu filho pequeno, e telefonou-me para dizer que devia pedir asilo numa embaixada. Depois publicou um artigo horrível e fui eu que lhe telefonei para lhe dizer 'Julgava que tu eras um académico, mas um académico não escreve assim. Podemos ter divergências, mas não baixar até ao insulto. Por outro lado tens obrigação de saber do que estas a falar. Mesmo que quando se discorda tem que haver respeito pelas instituições do país, que custaram tanto sangue e sofrimento'. Sente a necessidade de defender o pai, eu compreendo, mas quem o ler vai pensar «tal pai tal filho».

Foi a Genebra para falar na sessão inaugural da Comissão dos Direitos Humanos da ONU. Pediu apoio para investigar os recentes acontecimentos de Timor?

O apoio internacional já foi pedido pelas autoridades timorenses competentes.

Mari Alkatiri declarou que as casas incendiadas, saqueadas, foram «operações cirúrgicas»...

Isto é outra história. É bom que se saiba que os incêndios, as casas saqueadas, as ameaças contra pessoas, aconteceram maciçamente depois da chegada das tropas australianas e depois de nós termos ordenado aos militares timorenses para recolher aos quartéis. Toda a gente pedia ao Governo para chamar as FDSTL. Mas depois de terem voltado para os quartéis, já não podiam sair sob pena de serem desarmados pelos australianos.

O facto do embaixador de Timor na ONU, José Luís Guterres, ter sido candidato à presidência da Fretilin e ter criticado publicamente o PM e o Governo não cria uma certa confusão?

Um cidadão não deixa de o ser por ter sido nomeado embaixador. Tem o direito de participar em actividades políticas. Acho que se deveria coibir de certas manifestações públicas, para que a sua lealdade não suscite dúvidas. Ramos Horta fez uma observação neste sentido no Congresso da Fretilin.

A Justiça está em condições de funcionar em Timor-leste?

Depois de tomar o controlo das forças de defesa e segurança, a Austrália e a Nova Zelândia vão querer controlar a Justiça. É aliás um problema antigo. Quando eu era ministra da Justiça, era a Nova Zelândia que tomava conta das cadeias. A uma dada altura, mandei fazer uma inspecção, porque me chegaram rumores de irregularidades. Brindaram-me com um motim de reclusos, que se verificou depois ter sido orquestrado para comprometer o Governo. Os neozelandeses retiraram-se e depois de muita guerra e muita intriga, Portugal ficou encarregue deste sector e da Justiça. Quando deixei a pasta, já tínhamos assinado todos os protocolos de cooperação, para a formação dos magistrados, etc. Mas há quem não veja com bons olhos esta presença portuguesa e faça tudo para obstruir a aprovação das leis, do Código Penal. Agora, os australianos desembarcaram com polícias, investigadores, magistrados. Vão querer tomar conta da Justiça e depois da Administração Pública. Se isto acontecer, será o fim da independência e da soberania de Timor. Não se enganem: há uma estratégia por detrás disso. Fizeram exactamente a mesma coisa nas ilhas Salomão. A pretexto da luta contra os bandos, jogaram a polícia contra os militares e conseguiram por no poder o Governo que queriam. O problema é o tempo, que é curto, e temos menos de um ano até as eleições.

Nicole Guardiola

Timor-Leste (Loro Sae)



Ana Gomes, ex embaixadora de Portugal em Jacarta, afirma que o pedido de Timor-Leste “é uma admissão de falhanço na manutenção da ordem”. Pode até, Ana Gomes ter razão e o primeiro-ministro Alkatiri ter falhado, mas não sei se ponderou outras razões que estão na origem deste conflito e que têem a ver; claro, com a resolução do problema dos militares desmobilizados, mas também com a defesa dos interesses de Timor, incluídos no dossier petróleo e que desagradam à Austrália?
Se terá ponderado, o interesse australiano na desestabilização politica do País, conforme a investigadora australiana Helen Hill dá a entender na sua critica pública, e que podemos ler no DN de Sábado passado e, daí, a intimidação militar como um processo matreiro dos australianos se apoderarem de Timor-Leste?

Este conflito, que envolve forças militares a combater ex forças militares, fez as primeiras vítimas ontem, quando 50 militares revoltosos chefiados pelo major Alfredo Reinaldo, atacaram o quartel-general das Forças Armadas timorenses. Vitimas, que talvez se tivessem evitado com uma pronta resposta ao pedido de Ramos Horta no dia 10 deste mes e agora reiterada com novo pedido de ajuda e apoio militar internacional, aos governos de Portugal, Austrália, Malásia e Nova Zelândia com o conhecimento de Kofi Annan, secretário-geral das Nações Unidas.

Diz o PM José Sócrates após um telefonema de Kofi Annan; que estão reunidas as condições para o envio de um contingente da GNR no quadro de uma missão internacional, com o objectivo de auxiliar Timor a travar a rebelião.
Ficámos portanto à espera da ONU, ou seja; ficámos à espera que a ONU pagasse a nossa responsabilidade histórica de auxilio ao Povo Maubere e por isso a nossa resposta lenta, titubeante e economicista como se impõe, já que, e segundo o Público de hoje, o Chefe do Estádio Maior da Armada, Almirante Melo Gomes repetiu ontem aos jornalistas em Lisboa, que a Marinha está pronta em 48 horas para partir.
Acontece que vamos mandar a GNR, que para além de ser uma força policial, precisa de um mês para partir.